Ano Novo

Confesso que o processo de deixar um ano “para trás” nunca foi algo muito fácil pra mim. Seja pela ansiedade que me gera, pelas expectativas irreais que somos quase forçados pelo comportamento de manada a colocar no ano ou simplesmente porque tenho um certo medo de mudanças, sempre foi algo um pouco complicado de engolir. Essa última passagem, entretanto, pareceu um tanto necessária para renovar as esperanças, ainda que de casa e iniciando um novo lockdown no Reino Unido (que logo vai se espalhar pelo resto da Europa, não duvido).

Por mais que eu tenha continuado a trabalhar e tenha folgado apenas nos dias específicos, parecia que todo mundo merecia um respiro, eu inclusa. Estranho pensar que nesse ano perdi e tantos outros perderam pessoas queridas (a Animação brasileira perdeu também), e, ao mesmo tempo, foi um ano de tantas mudanças constantes e inesperadas, que 2020 precisava dar espaço para a chegada de um ano novo, com, pelo menos, uma sensação de esperança no ar.

Mal o ano começou e, no meio de centenas de emails de feliz ano novo de marcas que eu já nem lembrava mais, eu recebi alguns emails que me deixaram um tanto ansiosa para comentar com vocês (e para entender também). O primeiro: uma agência de freelancers, parecido (não igual, ok?) com a iniciativa da Ester Rossoni e do Dhyan Shanasa (o Supernova Duo).

Conversando um pouco com o agente que me contactou, vi que era super comum esse tipo de iniciativa por aqui, já que os clientes em si não são acostumados a contratar alguém que não conhecem e esse tipo de agência faz toda a ponte que a maioria dos criativos tem dificuldade em fazer. Uma agência pra freelar pessoas, basicamente. Posso estar enganada, mas, salvo algumas poucas exceções, não me lembro de uma vez que não foi sofrido não ter esse tino comercial que todo mundo que é freela por muito tempo diz ter. Então achei bem interessante a idéia de conversar com um agente que já tem todas as coisas que você aceita ou não e quanto cobra por dia ao invés de um cliente com quem você tem que saber barganhar.

O segundo email era justamente sobre novas vagas de emprego, no LinkedIn, que, como vocês sabem, é meio essencial aqui na Europa e está, vagarosamente, se tornando essencial aí no Brasil também. O que me deixou bastante intrigada foi a quantidade de vagas abrindo em todo o mundo pra nossa área, já que o movimento até o ano passado parecia estar sendo de migração intensa para freelancer, com poucas vagas permanentes ou fixas. Um pouco cedo para perguntar se estamos fazendo um processo de retorno para um mercado mais tradicional, ainda que em pequena escala?

E o “terceiro”, na verdade é mais de um email, eram emails sobre os zilhões de sindicatos para animação e design que temos por aqui. O processo de regulamentação das profissões (design ainda não é uma profissão regulamentada no Brasil, apesar de haver até faculdade específica) ajuda, e muito, na valorização da área e esses sindicatos tem alianças entre si e autonomia para agirem sozinhos em prol de determinados grupos na área. Por aqui, diferente do Brasil, o processo de sindicalização é caro, então é extremamente necessário procurar o sindicato que melhor atende as suas necessidades como parte de um grupo (o meu, no caso, ainda é incerto, já que tem alguns com os quais me identifico).

Ano novo, mas aqui estou eu pra bater na tecla da importância da sindicalização: eles servem pra gente ter força e ser valorizado como profissional. Então, tanto no Brasil quanto em qualquer lugar que forem querer trabalhar, é importante ir atrás do sindicato. Vocês podem estar perdendo muitos direitos por não saberem sobre os acordos coletivos, além de se submeterem a regras específicas de empresas que são contra a lei por medo de “peitar o chefe” (que vocês não deveriam fazer sozinhos mesmo).

E só pra fechar de maneira um pouco mais leve assistam Soul e Loop ambos da Pixar/Disney. Foi assistir esses filmes, um longa e um curta, que me fez renovar um pouquinho das minhas esperanças no ano novo e espero que toque vocês nesse sentido também. Feliz início de ano pra nós, com muita força pra ser motion, animador, designer, ilustrador, cineasta…

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