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Piores pecados: #1 Pode deixar! Na ilha, a gente resolve | Ctrl+Alt+N

Diária de filmagem: equipe trabalhando, locações dressadas, atores posicionados, luz marcada, todos à disposição do filme e do diretor. Eis, mais um dia de trabalho em um set de filmagem brasileiro. Um dia que, diga-se de passagem, custa caro para qualquer produção. Ou seja, não voltará a acontecer, via de regra.
Após a cena, ouve-se o diretor:

Diretor Linguiça:

-Cortaaaaa!
-Valeu.

Continuista e Assistentes de direção:

– Mas, diretor linguiça, no meu relatório não bateu a cena, hein!? Acho que seria melhor se você rodasse mais uma como opção.

Diretor Linguiça:
– Relaxa, rapaz. Pode deixar. Qualquer coisa, na ilha a gente resolve.

E, por fim, a cena sai do filme. Isso mesmo. Não resolveu. Pobre diretor Linguiça…tsc, tsc, tsc.

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu um profissional confiar demais nos poderes sobrenaturais da equipe de pós-produção. O problema , em 99% dos casos, se dá ao fato de que quem profere essa frase, normalmente, desconhece os limites e trabalho para pós-produzir um material. E, caso conheça, está sendo ainda mais leviano.

A situação vale para qualquer tipo de material que você está dirigindo, visto que até a área de eventos, pelo que pude perceber, usa-se de linguagem cinematográfica atualmente. E, acho que seus clientes não irão se casar de novo, só por que você não sabia o que queria na hora de registrá-los ou dirigí-los.

Na minha humilde opinião, todo esse imbróglio tem uma causa principal: é muito cacique pra pouco índio. Em outras palavras, existe um fetiche sobre a profissão e posição de diretor. Especialmente no universo ficcional. Para o senso comum quem manda é o diretor. Pelo menos em produções menores, isso de certa forma é verdade. Ao passo que, em produções maiores, na prática, quem manda no set são outros profissionais (assistentes, platôs e etc). E se o diretor tiver de puxar sua orelha no ambiente de trabalho, é um sinal que nada está funcionando por lá.

Cada vez mais, acho que as pessoas querem mandar; um desejo profundo e mal resolvido dentro de sí. Existem  opções para aliviar esse desejo: comprar um cachorro ou até escrever um diário já resolveriam essa demanda por mandança. Brincadeiras à parte, a pergunta principal é: quem tem realmente preparo e vocação para se tornar diretor?

Ora, um diretor deve enxergar o filme, deve planejá-lo estética e artisticamente. Deve saber delegar e reunir equipes, e se possível, até inspirar as pessoas que trabalham com ele em um determinado projeto. E é por isso tudo que, diretores que optam por exercer o ofício somente para mandar, têm alta probabilidade de tentar resolver seu filme na ilha. Seja por falta de repertório (o que nada tem  a ver com idade, diga-se de passagem), seja por nenhuma afinidade com a profissão.

Lembro-me das primeiras aulas na faculdade de cinema, geralmente quem já cursou, sabe: a cada 4 alunos, 3 querem se tornarem diretores. Com o passar do tempo, essa mentalidade amadurece, pois você começa a se descobrir e trabalhar em sets de verdade. Uma observação curiosa é que em uma sala de 40 alunos, no máximo 1 ou até ninguém quer se tornar montador (editor). Pois, cinema é glamour! (aham!!!). Quem quer ficar numa sala escura, fria, sozinho, sem ter aquela troca humana e bacana que acontece em set? E é exatamente esse profissional, o cara que quer, o editor, que terá de pegar a bomba de diretores linguiças espalhados por aí.

O digital, nesse sentido, trouxe uma noção turva de que tudo pode ser resolvido na ilha, um vez que os softwares e as produções ficaram mais acessíveis (o que não significa que o trabalho ficou mais barato). Dessa forma, muitos diretores escondem sua ineficiência atrás de teste e mais testes em tempo real, fazendo com que todos percam tempo e saúde durante o processo. Quem nunca gerou um arquivo: TESTE_DE_NOVO_PARA_VER_SE_VAI_DAR_CERTO.mp4 ?

Acho que um grande teste para qualquer diretor seria dirigir uma animação. Alí, sim! Se você não enxerga o filme, não existe filme. Pois, para gerar qualquer tipo de material bruto, só após muitas reuniões e decisões por parte de toda equipe. Não é algo que defina um profissional, claro! Mas acho o desafio válido, principalmente em tempos onde o digital dá possibilidades infinitas para se trabalhar, onde muitos diretores se escondem atrás dessas opções.

Não estou demonizando o digital. Pelo contrário, sou dessa geração. Não montei em moviolas, não emendei um filme no outro com fita crepe. O digital trouxe grandes vantagens. Por exemplo, grandes diretores foram revelados por serem filmmakers. Ou seja, começaram fazendo tudo em uma produção: dirigindo cena e fotografia, operando câmeras e até editando o material. Existe uma safra de bons diretores que tiveram a escola do faz-de-tudo. E o digital potencializou esse processo, de cobrar o escanteio , correr para a área pra cabeçar e ainda fazer o gol.

E para aqueles que não são bons em tantas funções, existe uma solução, pois as pessoas se esquecem de uma coisa importante: você pode contratar um diretor. Isso mesmo. O diretor é um profissional como qualquer outro, e, por isso, deve ser terceirizado. Tal qual acontece em grandes mercados. Isso não quer dizer que ele será dono do filme ou material que produzir, certo?

Em 2013, estive em uma oficina de edição e montagem, o instrutor era um montador conhecido no cinema nacional, João Maria. Ele falou para turma uma frase que nunca esquecerei: para mim, o set é um lugar selvagem. Ele se referia à experiência que teve como assistente de direção, experiência cujo não o agradou nenhum pouco. E por que? Simples! Essa é a voz de uma pessoa que se conhece como profissional. João Maria gosta da sala fria e escura, de pensar o filme, de criar narrativas. Ele é um montador e não se adaptou ao set. João Maria provavelmente nunca deixaria algo pra se resolver na ilha.

Isso não quer dizer que um diretor vai acertar sempre. Até os grandes já deixaram filmes para serem resolvidos na ilha. A exemplo do icônico Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Devido a uma série de fatores registrados por sua mulher no documentário: Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse, Coppola filmou aproximadamente 200 horas de material. E o filme foi, de certa forma, decidido na ilha. E, tornou-se um grande sucesso e um exemplo maior entre os montadores. Tanto é, que conhecemos bem a história de pós-produção do filme em questão.

Resumidamente, tentar resolver um filme na ilha repetidas vezes, pode ser um sinal que você não nasceu para ser diretor. Acho que todos deveriam se colocar nessa função algum dia ( sem fumar charutos e colocar boinas, por favor!), pois só assim um profissional pode dizer se essa experiência condiz com sua personalidade, com seu repertório e aptidão. E, talvez, dessa forma, a ilha de edição se torne um lugar mais inventivo do que um espaço para resolver problemas. E acredite! A maioria deles não irão ter solução.

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