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Papo Lemonade com Ariel Costa

Ariel Costa é um motion designer e diretor de arte/animação brasileiro, com alguns anos de experiência nacional e internacional. Já trabalhou para estúdios como Lobo, Roof, Tendril, State, Superstudio, Gentleman Scholar, Buck e atualmente atua como freelancer pelo nome Blink My Brain. Seu estilo de animação e colagens tem sido uma grande inspiração para grande parte da comunidade Mo.Grapher nos últimos anos.


Layer Lemonade – Conte-nos um pouco sobre você: onde cresceu e como decidiu que trabalharia com Motion Design?

Ariel Costa  – Meu nome inteiro é Ariel Zampoli da Costa, nasci e morei em um bairro da periferia de São Paulo, chamado Ermelino Matarazzo. Quase uma cidadezinha do interior.

Trabalhar com Motion Graphics foi um acidente feliz. Na époda da Faculdade, como bom rebelde que sou, quis fazer um trabalho de conclusão de curso provando que era possível existir cinema nacional com efeitos especiais. Isso foi em 2004, quando fiz um curso rápido de after effects em uma escola de animaçao em São Paulo (a DRC). Na mesma época, fiz um curso do finado Combustion, aprendi a usar os presets de partículas do particle illusion e me achava a encarnação humana da ILM … pffff.

Meu objetivo era criar vários efeitos cabulosos pro TCC. Na mesma época, achei que teria mais tempo pra me dedicar ao curta se arrumasse um emprego no núcleo de audiovisual da faculdade. Na época eu tinha um conhecimento muito limitado, mas mesmo assim sabia algo de After Effects, consegui um estágio na TV da faculdade e o único setor disponível era o setor de videografia. Foi na TV da faculdade que descobri que o After Effects servia mesmo era pra animar vinhetas e logos. Ali aprendi e explorei bastante. Era um novo mundo surgindo pra mim, automaticamente comecei a prestar atenção nas vinhetas dos canais a cabo: MTV, Cartoon Network….foi quando percebi que animar gráfico era muito mais impactante do que o VFX, que abandonei de vez.

LL – Quais eram suas grandes influências quando pequeno e quais são suas maiores influências hoje? (quadrinhos, animação, filmes, artistas, designers etc).

AC – Sempre fui viciado em comics; li muito Marvel e DC na vida, mas tb li muito Chico Bento, tive boas influências nos quadrinhos. Minha paixão pela animação com toda certeza do mundo veio da TV Cultura, especificamente assistindo Glub Glub. Hoje entendo o quão valioso foi o Glub Glub na minha vida: era como assistir um festival internacional de animação todo dia. Lá passavam desenhos da Dinamarca, Alemanha, Espanha…. Tinham desenhos de todos estilos: Stop Motion, 2D, 3D, Colagem, Live action. Sem dúvida Glub Glub foi uma grande inspiração. Depois de grande, quando já estava inserido no mundo Mographer, meus interesses passaram a ser mais focados. No início, comecei a conhecer e seguir um pessoal muito bacana… Nando Costa, MK12, Carlo Vega, a Lobo da época da Raquel Falkenbach, Guilherme Marcondes, Cisma. Hoje em dia tem muito mais gente pra se inspirar, muito mais gente envolvida. Então minha inspiraçao muda bastante, cada hora é um artista ou obra diferente. Nesses últimos dias tenho curtido muito o Heinz Hedelmann (que Deus o tenha) e uma artista muito bacana de NY chamada Katherine Streeter. Mas semana que vem muda.

Minha dica pra quem quer trabalhar fora é ser original e ter atitude no trabalho. Gente que anima bonitinho e faz design legal é o que mais tem por aqui, mas gente com atitude visual é difícil. Se pergunte sempre: O que posso oferecer de diferente? – Ariel Costa

LL – Você estudou em alguma escola de design/animação/cinema/publicidade ou é autodidata? Como desenvolveu suas habilidades?

AC – Eu me formei em Rádio e TV pela Unicsul em São Paulo. Um curso que não tem nada a ver com o que faço hoje, mas me deu uma base de illuminação e noções de enquadramento e coisas do tipo, embora sejam coisas super básicas. Tecnicamente fiz um curso de After Effects e Combustion. Mas sinceramente me considero um autodidata. Em 2002/2003, aprendi flash sozinho e comecei a fazer uns desenhos animados tendo meus amigos como personagens principais. Era uma série animada que fazia só pra mim, porque gostava. Motion Graphics aprendi de verdade tendo vários mentores pelos lugares que passei. Aprendi a mexer na câmera do After com um grande mestre chamado Emerson Bonadias (hoje supervisor de VFX na O2). Design fui atrás, na época a internet não tinha a informação que tem hoje, Behance, Pinterest não eram nada. O lance era na unha. Comprei muito livro. Trabalhava em uma pequena produtora e todo mês ia um tiozinho lá com um saco preto gigante cheio de livro de arte, o pessoal do estúdio sempre comprava, quase virei sócio dele. Acho que ele tinha uma filha que morava nos EUA que sempre mandava livros pra vender no Brasil. Em 2004/2005, praticamente morava na livraria Cultura da avenida Paulista. Os livros me ajudaram bastante!

Uma coisa que me ajudou muito com as habilidades foi a prática. Copiava muito trabalho dos outros, mas só pra estudo mesmo. Tentava replicar e às vezes melhorar um trabalho que achava muito bacana. Nunca coloquei em meu portifólio, mas com a arte de replicar, acabei pegando o timing de animação e mais noção de cor e composição, acho que foi um exercicio muito bacana e que me ajudou bastante. Em 2006, trabalhei em uma produtora chamada Studio Fly, que só fazia varejo. Foi o lugar que mais desenvolvi minha animação e onde aprendi a pensar rápido. Varejo é chato, mas é uma puta escola!

LL – Qual foi seu primeiro trabalho com Motion Design? Como foi seu caminho até conseguir trabalhos fora do Brasil e se mudar para Los Angeles?

AC – O primeiro trabalho foi no setor de videografismo da TV da Universidade, com meu TCC que foi um curta com efeitos especiais. Consegui um estágio na Casablanca, trabalhei na produtora do padre Marcelo Rossi, em uma produtora de varejo até finalmente conseguir trabalhar com publicidade.
Sempre tive a filosofia de ficar em um lugar até não aprender mais, por isso rodei muito estúdio em São Paulo. Em um ano, mudei de emprego sete vezes. Era praticamente um freelancer não oficial. Fui conhecendo todas produtoras e percebi que elas não extraiam ou não tinham o interesse em extrair o melhor de um projeto. Foi com essa busca pelo lugar perfeito que decidi abrir o estúdio que gostaria de trabalhar; então fundei a Nitro com o Lucas Ribeiro, onde fiquei quatro anos e meio. Foi meu recorde fixo em um único lugar.

Foi muito divertido no começo, mas percebi que o problema não eram as produtoras afinal, mas sim as agências e os clientes que criavam um ambiente super estressante e desinteressante naquele momento. E claro como todas referências vinham de fora e queria trabalhar com as referências, decidi deixar a Nitro. Uma das decisões mais difíceis da minha vida. Comprei uma passagem pra Los Angeles sem ter nenhuma entrevista agendada. Duas semanas antes de ir, terminei meu portfólio e mandei pra vários estúdios dizendo que visitaria a cidade na semana seguinte e que adoraria bater uma papo com eles. A receptividade foi muito bacana e estou aqui até hoje.

LL – Você possui um estilo próprio de colagens como ilustrador, que podemos observar nos seus projetos mais autorais. Em algum momento você se preocupou em criar um estilo próprio, ou isso aconteceu naturalmente?

AC – Não, foi total acidente. Se você olhar meu site, tem um monte de ilustrações 2D e cell animation, mas por alguma razão, os trabalhos de colagem acabaram se destacando mais. Isso não me incomoda nem um pouco; sempre adorei MixedMedia e tento colocar no meu trabalho sempre que posso. Abracei a técnica.
Acho que o que acontece é que estava um pouco cansado do estilo 2D, vetor e um monte de cell animation gratuito que estava rolando por aí. Sempre que buscava inspiração, acabava caindo nesse estilo que é muito popular, e por isso, abre-se um espaço pra uma galera que perde um pouco a noção e sai fazendo independentemente de conceito. Sempre achei interessante ir na contra-mão, e quando você foge da mesmice, acaba tendo acesso a outros tipos de referência, o que é muito positivo pro mercado.

LL – Precisamos estar sempre praticando para não enferrujar. Pra isso, tempo livre para projetos pessoais é importante. Mas como freelancers, é muito fácil se desorganizar no tempo. Você tem alguma rotina ou exercício que costuma fazer para manter as idéias frescas e se organizar? (sketchbook, caminhar, listas, etc).

AC – Essa sem dúvida é a parte mais difícil. Sou casado, tenho um filho de um ano e tenho dois cachorros. Tempo realmente é algo que me falta. Costumo ter minhas melhores idéias antes de dormir ou dirigindo. Minha grande sorte é que sou uma pessoa noturna. Quando estou em um trabalho pessoal, minha rotina é a seguinte: acordo às 8h30/9h; começo a trabalhar às 10h e vou até as 19h. Chego em casa umas 19h30, fico com minha mulher e filho até as 22h. Começo a trabalhar no projeto às 22h e vou até as 2h30 da manhã. Às vezes, quando realmente estou empolgado com o projeto, tiro uma semana off de trabalhos regulares pra poder me dedicar ao máximo no projeto pessoal.

LL – Dos estúdios em que você trabalhou, quais você mais gostou da experiência e por quê? E dos projetos que você fez até hoje quais seus favoritos?

AC – Com certeza o estúdio que mais gostei de trabalhar foi a Buck. Acho que foi o lugar que mais me senti inspirado, e é organizado. O fato de você trabalhar do lado de profissionais extremamente talentosos e sem nenhum pudor de compartilharem idéias e conhecimentos é incrivel! Posso dizer que depois de quase dois anos trabalhando pra Buck, sou um profissional diferente. Trabalhos favoritos são sempre os pessoais, porque consigo sair da minha zona de conforto e tentar algo diferente. Esse ano me diverti bastante com o Sins e também como o Motion Corpse, que criei o puppet do zero e animei o rapaz em Stop Motion…foi muito divertido!

LL –  Como diretor de arte e animação, que tipo de cuidado você toma ao ter de coordenar um projeto em equipe?

AC – Acho que o maior cuidado é ter toda a equipe pensando na mesma idéia. Por isso reuniões de pré-produção são muito importantes, e também sempre que estou dirigindo um projeto, adotei a postura que aprendi na Buck de fazer “check ins” diários e ver se a equipe está belezinha, se estão com dificuldades ou se tem sugestões.

LL – Você já passou pela experiência de ser sócio de um estúdio no Brasil, voltar a ser freelancer, ser diretor em grandes estúdios americanos e recentemente novamente ser freelancer. Quais as vantagens e desvantagens que você percebeu em cada uma dessas situações? E o que te fez/faz decidir mudar?

AC – Demorou um certo tempo pra aceitar que não nasci pra ter um emprego fixo. Fico muito entediado com a rotina e definitivamente não consigo obedecer regras coorporativas. Muitas vezes crio melhor fora do computador e do ambiente de trabalho. Mas como tudo na vida, isso tem suas vantagens e desvantagens.
Ter um estúdio foi muito bacana, porque aprendi a lidar com o outro lado da diversão, aprendi a lidar com burocracias, contratos, falar com clientes, vender uma idéia, como tratar as pessoas que trabalham com você. Sem dúvida alguma foi um passo muito importante pro meu amadurecimento profissional. Por outro lado, como dono de empresa, você segura os rojões, tive que deixar a parte criativa um pouco de lado pra cuidar mais do gerenciamento.

Ser staff ou fixo é muito legal porque você participa de algo maior, está sujeito a trabalhar em um projeto realmente grande e dividindo conhecimentos com seus colegas de trabalho, e recebe benefícios como plano de saúde, planos de aposentadoria e cuidam de toda a burocracia por você. A parte chata é que você não escolhe os trabalhos que vai fazer, e às vezes o seu rolê no trabalho não é interessante. As férias aqui nos EUA são bem diferentes do Brasil. O empregado tem direito a cinco dias off anuais e você tem direito a um “sick day” por mês, então se você não faltar nenhum dia do ano, você tem direito a tirar 17 dias de férias, o que passar disso são férias não pagas.

A vida de freelancer é mais solitária: você não faz parte de um grupo, muitas vezes não tem festas de fim de ano pra ir, e também é responsável pela aposentadoria, plano de saúde etc. Por outro lado, você é dono do seu nariz. Pode escolher o trabalho ou o estúdio. No meu caso, tenho uma representação que me passa trabalhos pra dirigir, então consigo trabalhar de casa com uma certa frequência, posso dormir até mais tarde, porque consigo organizar meu dia pra entregar o projeto. Acho muito mais divertido.

LL – Que diferenças e similaridades você percebe entre o mercado brasileiro e a indústria internacional? Tem alguma dica pra o Motion Designer brasileiro que aspira trabalhar internacionalmente?

AC – Acho que clientes e trabalhos não tão legais vão existir em todo lugar. Posso fazer uma comparação mais fiel se eu falar do mercado americano vs. brasileiro. Acho que a grande diferença é o profissionalismo. A formação dos americanos é muito mais precisa e direcionada. No Brasil, como mercado em geral é muito júnior, boa parte da culpa é da falta de interesse das agências em entender o mercado de animação, com prazos e verba cada vez mais curtos; outra coisa é a quantidade de produtoras que abrem, grande parte sem foco formada por uma “mulekada” que curte a área, mas não tem nenhum conhecimento de posicionamento, abrem o vimeo e tentam fazer igual. A cultura do virar a noite e pagar o famoso BV são coisas naturais do dia a dia, e que sem dúvida nenhuma não deveriam ser. Mas essa é a versão geral do mercado. Analizando o profissional brasileiro individualmente, eles são muito bons. O motion designer brasileiro não deve a nenhum profissional de nenhum outro país, são muito qualificados porque procuraram a informação, e o acesso desse tipo de informação no Brasil está se popularizando aos poucos. A maior prova de que o brasileiro é muito qualificado é que ele consegue ser maior, “visionariamente” falando, que a indústria de animação do país, fazendo com que muitos profissionais deixem o país atrás de melhores condições e oportunidades no exterior. Resumindo, são pouquíssimas produtoras no Brasil que realmente acho legal, mas são muitos profissionais individuais brasileiros que acho foda! Eles só precisam trabalhar no projeto e lugar certos.
Minha dica pra quem quer trabalhar fora é ser original e ter atitude no trabalho. Gente que anima bonitinho e faz design legal é o que mais tem por aqui, mas gente com atitude visual é difícil. Se pergunte sempre: O que posso oferecer de diferente?

LL –  E finalmente, quais os planos pro futuro do Blink My Brain? Já tem novos projetos a caminho? Estamos curiosos!

AC – O futuro do Blink My Brain parece muito divertido, tem bastante projeto bacana pra botar no site, alguns deles ainda não foram lançados pelo cliente, mas quero fazer um outro update logo mais. Tenho algumas idéias pra novos projetos pessoais. Queria arrumar mais tempo pra comunidade, tenho muita vontade de fazer tutoriais, mas não tenho tempo. Recentemente assumi um semestre no Mograph Mentor que foi muito bacana. Gostaria de fazer isso mais vezes.

Agora as últimas perguntas, rapidinhas:

LL – 2d ou 3d?

AC – 2.5d.

LL – Papel+lápis ou Wacom+computador?

AC – Wacom + Comp. Meu traço é meio tremido, consigo disfarçar melhor no computador, hahaha.

LL – 24fps ou 30fps?

AC – 24 fps… e 12 fps quando possível!

LL – São Paulo ou Los Angeles?

AC – Los Angeles.

LL – Ser generalista ou especialista?

AC – Especialista, mas saber como outros setores funcionam ajuda bem.

LL – Melhor hora pra trabalhar: manhã, tarde ou noite?

AC – Noite, com certeza!

LL – Limonada Suíça ou Pink Lemonade?

AC – Pink Lemonade!!!! Mas, aqui em L.A. tem uma bebida muito popular chamada Arnold Palmer, que é limonada + chá gelado. Sou viciado nessa parada!


O Layer Lemonade agradece enormemente a generosidade nas respostas dessa entrevista. Valeu demais, Ariel! Se você quiser saber mais sobre o Ariel e ouvir um papo super legal  com ele, basta acessar os nossos amigos do FODAcast.

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