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Papo Lemonade com Henrique Barone – Giant Ant

Henrique Barone é um animador, Diretor e Filmmaker brasileiro, nascido em 1985, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Formado em Design Gráfico, Henrique fez graduação na Vancouver Film School, tendo lançado a animação This Idea Is Not Working, que ganhou grande visibilidade e Staff Pick no Vimeo. Posteriormente, Barone passou a atuar em Vancouver como animador da Giant Ant, onde está até hoje e, dotado de uma incrível forma de animar, possui grande estima da comunidade internacional.

Layer Lemonade – Grande Henrique, bem-vindo ao Layer Lemonade! Vamos começar: Qual foi o seu primeiro contato com animação e quando percebeu que isso poderia virar uma carreira?

Henrique Barone – Meu primeiro contato com Animação que não tenha sido filmes ou desenhos animados na infância, foi no Anima Mundi de 2005. Na época, estudava Design Gráfico e é muito claro pra mim que foi nesse momento em que me apaixonei por Animação e, posteriormente, escolhi isso como carreira. A variedade de estilos, histórias, personagens e técnicas é tão grande que dá a sensação de que não existe “fazer errado”. Só existe tentar e fazer (e acredito nisso bem forte até hoje).

Com esse espírito, fizemos (Fe Ribeiro – minha esposa hoje! -, André Turtelli e eu), um curta chamado BizoroziB. Na época, Internet era meio escassa e não pesquisamos nada do tipo “como fazer Animação?”. A vontade era “misturar técnicas” e contar uma história de um besouro carregando sua casa. Montamos uma mesa de luz caseira, fizemos stop motion com cenário de objetos velhos, fuçamos no After 6.0 e saiu um curtinha! Hoje, tecnicamente, é claro que acho certas partes feinhas e, principalmente, acho lento mas, não trocaria por nada a energia e a vontade de criar que tivemos naquele momento. Me inspira até hoje quando me lembro daqueles dias.

Muitos dos filmes que vi no Anima Mundi daquele ano e nos seguintes, já que passamos a ir todo ano, ainda são daquelas referências iniciais que te “moldam” como artista e “constroem” seu estilo, acredito. É claro que, com o passar do tempo, você acaba tendo novas referências, seu gosto vai mudando e tal, mas acredito que existe algo bem forte e especial nessas referências iniciais de todo artista. Acho que meu curta de graduação da VFS – This Idea Is Not Working – tem bastante dessas referências que vi no Anima Mundi.

LL – Apesar das dezenas de milhares de grandes artistas na indústria, poucos são os que têm “assinatura”. Você está dentre esses poucos, transmitindo sua “pegada” em trabalhos que flertam por vários estilos, mas que mantém uma unidade. Como desenvolveu seu estilo artístico? Foi algo proposital ou surgiu com o tempo de maneira despropositada?

HB – Cara, brigadão! 🙂 É sempre estranho falar (e principalmente falar bem), do próprio trabalho. Eu costumo ser meio crítico e de tempos em tempos tenho desses dias de “não tenho estilo nenhum, não sei nada”. Haha. Boa parte de estar sempre fazendo coisas é até um pouco de insegurança artística, eu acho: “vou fazer isso aqui só pra ter certeza que sei mesmo”.

Maaaas, quando ouço comentários e elogios como o seu, sobre ter uma “assinatura”, em geral as pessoas comentam do timing, das perspectivas exageradas e da fluidez. Sou bem técnico e imagino que meu estilo venha um pouco daí. Fico ajeitando arcos, ease-ins e ease-outs por um bom tempo para que, no final, tudo flua no timing certo. Os frames pra mim são meio como peças de quebra-cabeça, se encaixar todos certinhos, você “vê” a imagem – e o movimento -, melhor. E como isso não tem a ver com o estilo em si, acabo transitando por diferentes estilos com certa naturalidade.

Também acredito ter começado na Giant Ant numa época em que Animação Clássica ainda não estava suuuper difundida em Motion Graphics. Ter feito alguns projetos com excelentes direções de arte, combinado com um uso legal de animação clássica, acabou dando um certo destaque a Giant Ant e, por ser um ambiente de bastante liberdade criativa, pude ir criando uma “assinatura” e um estilo de maneira despropositada.

Serei sempre grato demais a eles e ao Jorge, que me encontrou no Vimeo e chamou para o primeiro freela! 🙂 Fico feliz de, de certa forma, ter contribuído para difundir a Animação Clássica e o frame by frame e, sempre que possível, gosto de incentivar as pessoas a conhecerem mais a técnica. Hoje em dia, acho que já passou de “trend” para algo que as pessoas valorizam, entendem que é uma ótima base para se ter e sabem que é importante estudar e ter um certo conhecimento, ao menos.

LL – Em projetos como Tako Faito!, nota-se a incrível dinâmica de sua técnica; os ângulos de câmera e timing me lembram bastante as animações japonesas. Quais as maiores influências em seu trabalho e carreira, sejam artistas, estúdios ou mesmo produções inteiras?

HB – Sendo bem sincero, não sou muito bom com câmera, não. Costumo pensar mais na Composição do frame ao invés do tipo de câmera. Gosto de brincar com a profundidade e com movimentos de câmera, mas meu pensamento é mais de “vou trazer essa mão pra frente pra deixar a pose mais dinâmica” ou “vou levar o personagem daqui da frente até lá atrás porque o movimento vai ficar mais bacana”. É um pensamento bem 2D na verdade, haha, nunca penso  “vou distorcer os lados do frame, porque quero pareça a câmera x”. Em Tako Faito!, acho que a câmera nem deva fazer sentido na vida real, e talvez o “charme” venha um pouco desse “erro”.

Quanto a influências, acredito que as coisas que mais te influenciam são as que você vê, ou assiste, sem ter a intenção de “ser inspirado”. É claro que ficamos vendo animação o dia inteiro e é claro que, no começo de todo projeto falamos das animações e dos projetos que vimos recentemente e que estão nos inspirando mais e tal, mas, pessoalmente, sinto que quando vejo algo mais despretensiosamente, acaba ficando mais marcado. Por isso acredito que as influências iniciais – e da infância -, tem um poder bem grande. Nesse sentido, os movimentos de Tako Faito! tem muito de Power Rangers, Samurai Jack, Meninas Super Poderosas e do Tarzan deslizando na árvores. 🙂

LL – Conte-nos como foi sua trajetória até a Giant Ant e sua experiência ao trabalhar em um dos estúdios mais aclamados atualmente.

HB – Comecei fazendo freelance no estúdio mesmo e, desde o primeiro dia, me senti super a vontade. Todos são incrivelmente humildes e tranquilos. Era engraçado porque eu não era “do Motion Graphics”. Não sabia o que era Buck, não sabia porque estavam chamando Animação de Cel, não sabia o que era Vimeo Staff Pick. Eu via o Cartoon Brew, e eles viam o Motionographer, que também não sabia o que era. Fui descobrindo meio quieto e aos poucos. Depois de uns 3 ou 4 projetos como freelancer, tive a proposta de uma vaga fixa e o primeiro projeto oficial como um novo Ant foi o TOMS. Nada mal pra começar! 🙂

“Demorei um pouco para perceber e aprender, mas boa parte da inspiração, da energia e de uma boa condição vem de não ser “criativo” o tempo todo e estar ok com isso.”

LL – Muitos artistas da nossa área têm uma dificuldade terrível de se organizar no trabalho. Você se considera um cara organizado nesse sentido? Se sim, que dicas daria pra quem têm essa deficiência?

HB – A melhor coisa, pra mim, é fazer listinha na vida real! Pra mim, é muito melhor e mais compensador riscar com um lápis uma tarefa completa do que apagar uma linha num Google Doc. A outra dica é quebrar um projetão em partes menores e focar em realizar cada partezinha de uma vez.

Eu também gosto de fazer um cronograma no começo de cada projeto. As vezes é até meio vago mas, tendo isso feito, sinto que fico com minha cabeça mais livre para focar, pensar e criar. Apesar de para algumas pessoas acabar sendo uma jaulinha de prazos e deadlines anti-criação, eu recomendo, sempre que possível, tentar traçar um planinho que seja.

LL – Apesar da agenda apertada na Giant Ant, você consegue produzir coisas autorais? Pra você, qual a importância de artistas investirem seu tempo em projetos que, num primeiro momento, não lhes rende dinheiro?

HB – Acho super importante, mas hoje pra mim, isso vem depois de investir tempo na vida pessoal. Demorei um pouco para perceber e aprender, mas boa parte da inspiração, da energia e de uma boa condição vem de não ser “criativo” o tempo todo e estar ok com isso.

É parecido com a ideia de olhar algo com fresh eyes, mas numa escala maior. Da mesma forma que olhar para algo depois de uma pausa de 1 horinha, vai te fazer ver outras coisas; tirar o domingo para não fazer, nem pensar em nada relacionado ao trabalho, por exemplo, vai fazer você “ver” as coisas de uma forma diferente na segunda-feira. Se divertir, relaxar, ver o céu, também é “estudo” para sua mente.

Dito isso, trabalhamos com algo que somos apaixonados e essa linha trabalho x hobby x vida é muito tênue. Admiro bastante quem dá todo o gás que tem, especialmente nos primeiros anos de carreira, e realmente vai atrás do sonho. Mas, perceber e valorizar a diferença entre essas coisas, foi um passo importante pra mim.

LL – Você está na segunda temporada como mentor no MoGraph Mentor. Como vê o ensino das artes digitais no âmbito online? Acha que podemos aprender completamente artes tão complexas como Animação via web, sem contato físico com professores?

HB – Obviamente, cada um aprende melhor de um jeito. Eu, por exemplo, acredito que quanto mais “físico” ou “real” o curso online seja, maior e melhor é a assimilação do conteúdo. Isso é o que tenho tentado fazer nas aulas de Animação Clássica no MoGraph Mentor. As aulas virtuais são ao vivo e os alunos podem perguntar, tirar dúvidas do exercício anterior, “levantar a mão” no meio de algo que estou demonstrando, perguntar de algo que não está, necessariamente, no conteúdo daquela aula, e por aí vai. Depois da aula, os alunos – e eu – levam a conversa adiante no grupo do Slack, onde compartilham wips dos exercícios e trocam ideias e feedback. O objetivo é não deixar essas 6 semanas com uma cara de um grande tutorial; focamos bastante na conversa e na prática e isso dá espaço para o aluno desenvolver algo com sua própria voz e estilo, não se apegando muito a fórmulas passo a passo, mas aprendendo como abordar Animação Clássica do começo ao fim.

Acho que tutoriais e passo-a-passo são ótimos para algumas coisas, mas acredito que uma educação de qualidade – online ou ao vivo -, deva ir além disso.

LL – Uma pergunta de praxe: quais dicas daria a quem está ingressando no ramo da animação/motion design?

HB – Não ligue muito para “trends”, já já vai passar. Aprenda Animação e não softwares, plugins e afins, já, já isso vai passar também. Acredito que sua carreira pode ser muito mais longa se aprender e fortalecer os princípios básicos primeiro e, posteriormente, adaptar ao que estiver acontecendo no mundo ao seu redor.

LL – De todos os projetos que trabalhou, qual o seu favorito? Aquele que você não se cansa de assistir.

HB – Gosto muito das cenas que fiz para para o video clipe colaborativo com a Golden Wolf, especialmente porque fiz design e animação. Olympia eu também re-assisto de tempos em tempos e gosto bastante! Mas acho que o meu trabalho favorito é meu curta de Flash da VFS, Tough West, especialmente pelo roteiro, voice over, música e a direção no geral. É bem pessoal e sempre me arrepia um pouco quando vejo.

LL – Você tem algum método ou técnica pra “focar no trabalho” mais facilmente? Conte-nos como é um dia típico de trabalho de Henrique Barone.

HB – Não tenho uma técnica específica. Em geral, ouço música mais leve mas, recentemente, o tal do “Animation is concentration” do Richard Williams tem feito bastante sentido. Ponho o fone e fico sem ouvir nada, haha. Em geral, deixo podcasts e entrevistas para quando estou fazendo algo que requer menos foco como inbetweens ou clean-up.

RAPIDINHAS

LL – Software favorito?

HB – Flash.

LL – Música inspiradora?

HB – The Frames – Fitzcarraldo (ou qualquer uma do Glen Hansard)

LL – Mac ou PC?

HB – Sempre usei PC, mas mudei pra Mac, recentemente. Troquei tarde, porque agora a onda é PC. Haha.

LL – Jaspion ou Jerry?

HB – Tintin.

LL – Limonada ou Tapioca?

HB – Limonada E Tapioca.

Última pergunta Você precisa dar um pulo no Brasil e vir a sede do Layer Lemonade, mas fora isso o quê faz um grande animador?

HB – Seria demais visitar vocês! Um grande animador? Em termos práticos, entende de movimento. Em termos bem menos práticos, tenta entender das emoções e de ser humano, para trazer vida a esses movimentos. A primeira parte é bem mais fácil. 🙂


O Layer Lemonade agradece imensamente a participação de Henrique Barone! Esperamos recebê-lo de volta em algum outro momento, e desejamos todo sucesso do mundo!

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