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Papo Lemonade com Mau Borba

Motion Designer paulistano, Mau Borba possui vasta experiência com background em animação 2D e Film Production. Especializou-se em 3D nos últimos anos, assumindo a função de Head of CG na State Design – estúdio baseado em Los Angeles e comandado por Marcel Ziul -, onde atua atualmente. Essa semana, Mau Borba lançou seu portfólio online, reunindo os melhores trabalhos de sua carreira (alguns deles no corpo da entrevista abaixo).

Layer Lemonade: Vamos começar falando de você pessoalmente. O que pode nos contar sobre suas influências de infância – adolescência -,  e de como elas contribuíram para torna-lo no profissional que é atualmente?

Mau Borba: Desde que me lembro por gente sou fascinado em animação, quadrinhos, desenho e ficção científica. Como muitas crianças de apartamento criadas em São Paulo, preenchi minhas tardes assistindo Jaspion e animes na Manchete, enquanto comia bolacha com yoyo-cream. Desenhando tudo que achava fantástico de Disney à Macross e quebrando ventiladores com a intenção de compreender o funcionamento deles para construir um avião.

Decidi que trabalharia com animação quando tinha 15 anos, assistindo Detonator Orgun na Manchete. Isso porque prestar Mecatrônica para construir robôs seria muito difícil.

LL: O Motion Design é algo relativamente novo, se comparado à animação clássica. Por que você, como fã de animação, embarcou no mundo do Motion Design e não da Animação Tradicional?

MB: Acho que até 10 anos atrás não tinha coragem de admitir minha paixão por animação como uma profissão viável, o que hoje podemos considerar um pensamento banal. Logo não usei os primeiros anos da minha carreira para ir direto ao ponto, mas fui tangenciando e comendo pelas beiradas até a força gravitacional da animação me puxar de vez.

Por conta desse processo indireto fiz algumas escolhas pobres e acabei em Publicidade e Propaganda, acreditando que ao menos estava na “área criativa”.

Durante a faculdade, os softwares da Adobe e Macromedia se tornaram extremamente acessíveis, o que reacendeu meu interesse por trabalhar com animação e fugir do futuro de agência que me esperava se seguisse a vida de Bacharelado.

Desde então, tenho trilhado um caminho mais ou menos autodidata, o que me possibilitou muita liberdade para explorar as coisas de que mais gosto e montar minha caixa de ferramentas. Mas com lacunas de fundamentos que custaram a serem preenchidas sem um sistema de aprendizado mais estruturado.

LL: Você é um cara versado no 3D, mas não começou com isso. Em que momento percebeu que a animação 3D o agradava mais?

MB: Estava tentando iniciar no 3D desde o começo de meus estudos em computação gráfica, e acho que Matrix foi o filme que me fez fechar nessa direção. Antes de começar a aprender o After, tentei aprender 3D Studio Max e Lightwave. Infelizmente não consegui vencer a curva de aprendizado em ambos softwares.

Depois, quando já trabalhava como Motion Designer tentei focar em Maya, mas seu sistema de nodes derrotou minha força de vontade. Apenas quando abri o Cinema 4D há uns cinco anos, o 3D passou a fazer parte das ferramentas que uso comumente em projetos profissionais. A partir daquele momento, o 3D tomou uma proporção fundamental na minha carreira e mesmo o After, que foi meu fiel companheiro por anos, ficou em segundo plano.

LL: Qual sua maior influência no mundo artístico, aquela pessoa ou projeto que o inspirou a avançar e buscar?

MB: Um dos maiores exemplo para mim é o Ridley Scott, e Alien e Blade Runner são dois filmes que considero atemporais. E apesar de estar numa área totalmente diferente, sou admirador do processo dele e da forma que ele se sacrifica (e à sua equipe também) para contar uma estória impecável. Sempre foi algo que me inspirou profundamente.

Por boa parte da minha vida, percebi a barreira entre o mundo das ideias e o mundo manifesto como algo quase intransponível. Logo o autossacrifício, a gratificação atrasada, tornar-se a ferramenta para a realização de seus propósitos são qualidades pessoais que me fascinam. Também não posso deixar o Katsuhiro Otomo e o Miyazaki de fora. Para mim, ambos têm essa mesma qualidade, quase que desumana, de fazer fruir as mais insanas narrativas a qualquer custo.

LL: Falando de projetos e artistas: você já teve aquele momento “fodeu!” ao pegar um projeto e perceber que não conseguiria executá-lo?

MB: Sim! Diversas vezes. A gente geralmente cresce lentamente, um pouquinho a cada dia, semana, mês… Mas sinto que são justamente nessas roubadas que a gente se desenvolve de forma não apenas mais acelerada, mas qualitativa.

Nem por isso temos que procurar nos colocar nesses buracos. Mas é bom saber que mesmo nessas situações adversas é possível acessar uma força que geralmente nem percebemos que temos. São também boas oportunidades para aprender sobre nossos limites e comunicá-los aos nossos parceiros, chefes, etc.

LL: O que faz um bom profissional?

MB: Antes de mais nada, comprometimento e presença. Não importa o acordo que você tenha feito para o projeto ou trabalho fixo atual, se deixou a desejar financeiramente ou se as condições não são o que você esperava. Agora você está nele, então esteja nele de forma plena até sua conclusão.

A única pessoa que vai se atrasar se você não colocar seu máximo em cada projeto é você mesmo. Naquelas oito horinhas, você precisa estar disposto a fazer o seu melhor, e boa sorte ao escolher melhores oportunidades para o próximo trabalho caso o projeto atual não seja do seu gosto.

A segunda coisa é justamente isso. Aprender a se escutar e respeitar seus gostos e desgostos. Você pode construir uma profissão que é um castigo diário ou uma fonte de satisfação sem fim. Vai de você guiar sua carreira nessa ou naquela direção. Nada vai acontecer da noite para o dia, mas se você estiver atento, pouco a pouco vai fazer mais do que gosta e menos do que não causa empolgação.

Outra coisa importante é ser amigável e acessível às pessoas a sua volta. Não é pra ficar no bebedouro por 40 minutos trocando ideia, mas quando a gente se abre para os outros, a comunicação tende a fluir de forma mais saudável e as colaborações se potencializam. Busque motivos para ser grato, mesmo nas situações mais adversas. Que seja um desafio para o seu crescimento, ou uma nova percepção de algo que você não deseja para si mesmo no futuro. Mas deixe que esse sentimento sempre prevaleça sobre os azedismos dos dia a dia. Por último, repita todos os dias “sou um aprendiz”. No dia em que essa frase não soar natural ou sincera, procure outra profissão.

LL: Das técnicas que possui em seu arsenal, qual a que mais exigiu de você, aquela que fundiu sua cabeça, mas que hoje é como fazer café?

MB: Não saberia pontuar uma técnica. Acredito que minha cabeça funde a cada projeto, sempre tento aprender alguma coisa nova, mesmo quando não precisa. Mas acho que se tiver que elencar algo hoje, escolheria animação de câmera. Tem alguns projetos de anos atrás que gastei horas e dias para chegar em resultados que hoje me desagradam profundamente e que consigo fazer melhor numa fração menor de tempo.

No final é algo que evolui apenas com prática, não se trata de compreender um conceito ou técnica, mas de fazer repetidas vezes e de notar não apenas a qualidade evoluir com o tempo, mas sua própria capacidade de observar essa qualidade.

LL: Atualmente você trabalha como Artista 3D na State Design em Los Angeles. Em algum momento do seu início de carreira, imaginou estar sentado onde está hoje?

MB: Sempre desejei trabalhar em um estúdio como a State. Mas não sabia se eu tinha o que era necessário. Duvidava muito do meu potencial e já enterrei esse sonho diversas vezes ao longo dos anos que trabalhei exclusivamente com varejo.

Acho que as coisas começaram a fluir melhor quando parei de me preocupar tanto com o lugar onde trabalho e comecei a buscar satisfação nos projetos que estivessem na minha frente, quaisquer que eles fossem, e a me tornar o elemento de mudança nos momentos que percebi que as coisas poderiam ser diferentes. Uma coisa levou à outra e aqui estou. O que me faz pensar na máxima do mitólogo Joseph Campbell “sempre busque sua bem-aventurança”.

LL: Hoje o acesso à informação e o avanço e popularização tecnológicos facilitam muito o aprendizado e alcance de softwares especializados. Você enxerga mudanças positivas ou negativas na cena do Motion Design mundial por conta disso?

MB: Acho que a disponibilidade de informação de qualidade é inigualável a qualquer outra época e essa oferta de conhecimento só tende a aumentar. Com isso, surge o problema da saturação do mercado. Mas acho que é um problema autorregulado. Aqueles que estão comprometidos e são dirigidos por paixões verdadeiras sempre encontrarão oportunidades, mesmo em tempos de crise como o atual. O importante é notar que essas informações estão aí não apenas para as novas gerações de Motion Designers, mas permanecem como um constante convite ao aprofundamento do seu aprendizado e busca por inovação e reinvenção da sua carreira.

LL: Qual o melhor conselho que recebeu de alguém da área e que passaria adiante para alguém que está começando?

MB: “No momento que o pau estiver comendo e você estiver perdendo a perspectiva das coisas se lembre que é apenas Motion Gráficas. Ninguém vai morrer e você não vai salvar uma vida fazendo esse projeto. Então não tem porque colocar qualquer trabalho acima do seu bem estar e da sua saúde.”

Lembro claramente do Marcel escrevendo num post-it e colando no meu monitor “It’s just broadcast”. hahaha

LL: Quais as diferenças e similaridades entre o mercado brasileiro e o internacional?

MB: Acho que no geral os cliente daqui são mais educados a respeito do processo de produção. Os prazos são um pouco mais possíveis. Direitos são observados de forma mais ativa. Tem espaço para muita loucura também, mas no geral parece existir um processo melhor delineado para as produções.

LL: Qual o estúdio de animação/motion que gostaria de visitar?

MB: Gostaria muito de conhecer a galera dos estúdios Man vs Machine, Elastic e Aix Sponsa.

RAPIDINHAS

LL: 24fps ou 30fps?

MB: 24fps com um crescente interesse por 12.

LL: Cinema 4D ou 3ds Max?

MB: Vish…

LL: Manhã, tarde ou noite?

MB: Noite.

LL: Anime ou Pixar?

MB: Anime 7 vezes por semana.

LL: Akira ou Xuxa?

MB: Xuxa, Akira é muito baixo astral. 😛

LL: Houdini ou Octane?

MB: Octane no Houdini pode?

LL: Limonada ou suco de caju?

MB: Limonada mata muito mais a sede e tem aquele azedinho doce no final que é imbatível.


O Layer Lemonade agradece imensamente ao Mau Borba pela entrevista! Quem quiser ver mais trabalho desse grande artista, basta acessar MAUBORBA.COM.

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