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Papo Lemonade com Oleg Shushkanov – Redhorse Studio

Oleg Shushkanov é um Sound Designer / Compositor russo, fundador do famoso Redhorse Studio. Formado em Publicidade e Marketing, Shushkanov mergulhou fundo na carreira de Sound Designer, descobrindo a aperfeiçoando a arte de sonorizar imagens silenciosas. Atualmente, Oleg atua no mundo todo através de seu estúdio, e trabalhou em inúmeras peças premiadas mundialmente.

Layer Lemonade – Conte-nos um resumo sobre você: onde nasceu e cresceu, quais suas influências na infância/adolescência e como decidiu que trabalharia com Sound Design?

Oleg Shushkanov – Nasci na cidade siberiana de Tyumen, Rússia, em 1982. Quando era criança, meu pai começou a cultivar meu amor pela música. Sempre que voltava de viagens de negócios, ele me trazia uma pilha de discos de bandas e músicos do mundo todo. Era principalmente música pop e rock; e isso me engoliu completamente. Eu sempre desejava mais disso do que presentes de aniversário ou doces de Ano Novo, porque existia pouca oferta de discos em Tyumen nos anos 80. Sempre senti como se meu pai estivesse me dando o pedaço um mundo paralelo que não tive chance de visitar. Aos 4 anos, eu já consumia música de todos os tipos, embora nem sempre conseguia ler o nome da banda ou a lista de faixas. 🙂 As letras eram um desafio ainda maior. Não entendia muitas coisas, mas as melodias e o próprio som me fascinavam. Eu ouvi-os do nascer ao pôr-do-sol em vez de brincar com outras crianças. Meus amigos, mais tarde, me compraram um cravo especial para crianças e comecei a aprender acordes. Tentava tocar minhas melodias favoritas e passava horas trabalhando-as apenas “de ouvido”. Mais tarde, já adolescente, parei de tocar, e apesar disso não consigo lembrar um dia em que não escuto.

LL – Você possui alguma formação como musicista / fez algum curso, ou sempre esteve no time dos autodidata? Como desenvolveu suas habilidades técnicas?

OS – Para ser sincero, nunca dominei partitura. Ainda faço tudo “de ouvido”. Eu desenvolvi minhas habilidades sozinho e nunca tive treinamento especial em música. Depois de me formar, fui para a universidade e entrei no Departamento de Publicidade e Marketing, porque nossa cidade não tinha cursos de Produção Musical e Sound Design, e ir estudar em outra cidade era meio assustador. 🙂 No entanto, minha educação em publicidade me ajuda muito até hoje. Depois de me formar, trabalhei por três anos como Produtor de Som na rádio. Lá, aprendi muito sobre o funcionamento interno do som, sobre a coreografia sonora e estruturas. Mais tarde percebi que queria algo mais do que criar vinhetas ou propagandas sonoras para rádio. Queria trabalhar com imagens; parecia um próximo passo lógico. Decidi deixar o rádio e fazer o que queria. As pessoas me disseram que estava cometendo um erro e tentavam me convencer de que não conseguiria. Mas fui fiel a mim mesmo, e me dediquei a alcançar meus objetivos. Foi muito difícil. Organização é muito mais difícil do que o próprio trabalho. 🙂 Eu me aperfeiçoei constantemente, aprendendo as complexidades da escrita e mixagem de música. Assisti inúmeras palestras de Sound Designers mundialmente conhecidos; estudei manuais e lia literatura profissional. A auto-educação tornou-se a forma de mais eficiente para mim. Olhando para trás, posso ver que o autodidatismo – e ter me tornado freelancer -, foram duas das melhores decisões da minha vida.

LL – Você consegue identificar qual foi o momento mais difícil da sua jornada como Sound Designer e como conseguiu superar?

OS – Definitivamente foi o momento em que tive de acreditar nas minhas próprias habilidades. Quando entrei no Sound Design, não estava seguro se teria sucesso. Além disso, meus pais e amigos íntimos estavam em cima de mim, tentando convencer-me a encontrar um trabalho REAL. 🙂 Mas decidi não parar, e acho que consegui.

LL – Se você pudesse voltar no tempo, para sua fase inicial como Sound Designer, e dar um conselho para o Oleg daquela época, qual seria?

OS – Ótima pergunta! Eu aconselharia o “meu eu” mais novo a encontrar um agente e dedicar mais do meu próprio tempo ao trabalho com som. Tenho um agente há alguns anos, então não procuro mais clientes, mas teria sido melhor encontrá-lo mais cedo. 🙂 Recomendaria veementemente a atingir a cena internacional, e não me limitar a trabalhar apenas com empresas russas.

Hoje, um escritório virtual é tudo o que você precisa para ser eficiente. As tecnologias de comunicação deram um grande salto nos últimos dez anos; o mundo mudou profundamente.

LL – Qual é a parte mais complicada ao se criar o Sound Design de uma animação?

OS – Provavelmente é encontrar o tom certo para um projeto específico. E, honestamente, ainda não encontrei uma receita universal pra isso. Talvez alguém tenha conseguido? Avise-me, por favor. 😉 Toda vez que começo a trabalhar em um novo projeto, gasto algum tempo em uma busca tediosa. É como a ansiedade antes de entrar no palco. Vago pelos sons tentando sentir o tom mais apropriado; chamo isso de “submergir no material”. Procuro me dissolver nas imagens e “ouvir o que elas são”; eu lhes atribuo vozes e, eventualmente, percebo o quê é o quê! O cliente nem sempre concorda comigo, mas essa é outra história.

LL – Conte-nos um pouco sobre o Redhorse Studio.

OS – O Redhorse Studio é essencialmente uma pequena equipe de cinco pessoas. No começo, eu estava sozinho, mas sabia que teria de crescer e, mais cedo ou mais tarde, não seria capaz de lidar sozinho com as coisas. Na verdade, isso não acontece com freqüência; é mais comum nos oferecerem projetos não tão interessantes, mas não é bom recusar trabalhos. Nesses casos, deixo o projeto para os meus colegas de equipe e só supervisiono a qualidade geral. Todos trabalhamos em casa e não alugamos um escritório. Com o aumento das tecnologias de comunicação e da Internet, é desnecessário. Hoje, um escritório virtual é tudo o que você precisa para ser eficiente. As tecnologias de comunicação deram um grande salto nos últimos dez anos; o mundo mudou profundamente. Acredito que em mais dez anos, os escritórios virtuais se tornarão local-comum.

Olhando para trás, posso ver que o autodidatismo – e ter me tornado freelancer -, foram duas das melhores decisões da minha vida.

LL – Quais são as etapas de produção de um Sound Design? E aproveitando, quais softwares você utiliza como ferramenta de trabalho e como é o seu setup no estúdio?

OS – Como mencionei anteriormente, o primeiro e principal passo é encontrar o tom certo. O sound design não pode ser muito evidente, sua função é dar mais vida à imagem e não arruinar o que já existe. É fácil detectar um sound design ruim. Se o vídeo ficar melhor em silêncio, então o trabalho é ruim. Por sinal, às vezes falamos aos nossos clientes que não precisam de um Sound Designer. Em alguns vídeos, é realmente desnecessário. Francamente, não quero aborrecê-lo com detalhes técnicos, mas, em geral, o ciclo é esse:

  1. Se o vídeo tiver narração, a primeira coisa é garantir que a voz soe limpa e clara e não irrite aos ouvidos, porque a atenção do espectador é focada principalmente na voz. Um narrador pobre poderia danificar não apenas a faixa de áudio final, mas a imagem em si, porque o espectador julga o vídeo como um todo. Assim, um pequeno pedido: por favor, consulte profissionais antes de escolher um locutor. 🙂
  2. A voz precisa casar com a música. Tem de estar em uníssono. Qualquer conflito entre os dois está fora de questão, tanto em termos de frequência quanto de afinação.
  3. Quando a voz e a música soam bem, podemos avançar e submergir no material para procurar o tom certo para trazer mais vida à imagem. Em termos de equipamentos, não usamos nada específico. Apenas computadores rápidos, teclados MIDI, acústica de estúdio, microfones e uma tonelada de instrumentos e plugins VST. 🙂
…Reconcilie-se consigo mesmo e não terá de lutar no trabalho ou em casa.

LL – Qual o melhor conselho que recebeu de alguém mais experiente na indústria de Sound Design / Música, e que daria a um iniciante?

OS – Quando participei de palestras com famosos produtores musicais, compositores e sound designers, todos diziam uma coisa: não tenha medo de experimentar. Ainda acredito que esse é o melhor conselho que se pode dar a um iniciante. Experiência!… E não apenas na música. 😉

LL – Uma das maiores dificuldades de qualquer profissional é conciliar o trabalho com a família. Como você reconcilia a vida pessoal com o trabalho?

OS – Essa é uma questão profundamente filosófica, e merece ser respondida da seguinte forma: reconcilie-se consigo mesmo e não terá de lutar no trabalho ou em casa.

LL – E finalmente, quais os planos pro futuro de Oleg Shushkanov? Novos projetos a caminho? Estamos curiosos!

OS – Tenho percebido em mim um crescente interesse por projetos sociais e jornalismo. Gostei muito de trabalhar com os caras da Fivethirtyeight. Nós lançamos duas peças maravilhosas: “A Woman President Wouldn’t Erase Centuries Of Male-Dominated Politics” e “Space Sex is Serious Business”. Um deles tornou-se parte da campanha presidencial de Hillary Clinton e obteve uma nomeação no The Webby Awards. Mas o vídeo-clipe do Moby – Are You Lost In The World Like Me? -, nos venceu!  🙂 Um excelente trabalho e uma merecida vitória. Estou agora entre os prestadores de serviços oficiais da Disney / ESPN. No futuro, planejo trabalhar com outros grandes editores. Gostaria também de trabalhar mais com anúncios de vídeo e curtas animados. Sempre estou em projetos colaborativos interessantes, então me convide para entrar, ficarei feliz em participar e adicionar algo valioso aos seus projetos. Por sinal, existem vários projetos interessantes no horizonte. Eu também planejo fazer um pequeno rebranding e criar meu próprio site. Eu sei, eu sei! 🙂 Deveria ter feito isso há muito tempo. Mas o Vimeo e Behance foram mais do que suficientes até agora. Posso me mudar para uma cidade maior, e apesar de amar minha cidade natal, mas está começando a ficar um pouco apertada.

LL – Melhor hora para trabalhar? Manhã, tarde ou noite.

OS – Definitivamente durante a noite, quando não há barulho e você pode se concentrar completamente no trabalho. O silêncio é o melhor amigo de um artista. Como Martin Lee Gore cantou: “I’m waiting for the night to fall. I know that it will save us all. When everything’s dark, keeps us from the stark reality”.

LL – Curta metragem ou comercial?

OS – Isso é como perguntar a uma criança, quem você ama mais? Mãe ou pai? A criança está perplexa e começa a se sentir desconfortável. Ele não quer escolher. Posso ser essa criança? 🙂

LL – Compositor favorito?

OS – A criança da resposta anterior mergulhou calmamente nessa. 🙂 Na verdade, é muito difícil escolher um único compositor. Há tantos deles, e eles são tão bons em seus próprios caminhos, tão únicos. Mas como você está perguntando, com a estranheza de uma criança, eu irei citar alguns: Ludwig van Beethoven, Richard David James (também conhecido como Aphex Twin), Angelo Badalamenti, Thomas Jenkinson (também conhecido como SquarePusher), Eduard Artemiev, Thom Yorke, Richard Vriland (Aka Disasterpeace) e, claro, The Big Bang (vulgo White Noise) – os sons que você ouve quando sintoniza a TV com uma onda livre.

LL – Vodca ou Limonada?

OS – Chá com llimão 😉


O Layer Lemonade agradece imensamente a participação de Oleg Shushkanov, e desejamos todo sucesso do mundo! Vale lembrar que Oleg estará – ao nome de Redhorse Studio -, participando do nosso projeto colaborativo – LOVE MACHINE -, criando toda a parte de sound design!

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