fbpx

Papo Lemonade com Paulo Muppet – Birdo Studio

Nota do Layer Lemonade: A entrevista com Paulo Muppet, da Birdo, foi realizada por Léo Almeida – Diretor Criativo da Prato & Pixel -, em nome e a convite do Layer Lemonade. Paulo Muppet é co-fundador da Birdo ao lado de Luciana Eguti, e seus filmes foram exibidos em festivais como Clérmont-Ferrand e Pictoplasma, premiados dentro e fora do Brasil e selecionados para publicações de prestígio tais como Stash, Vimeo Staff Picks e a home page global do Youtube. Como diretores de animação da Birdo, Luciana e Paulo trabalharam em mais de 80 projetos, incluindo 6 longas-metragens, 17 curtas e videoclipes, dezenas de comerciais para clientes como FIAT, Google e Unilever, além de projetos internacionais diversos que vão de projeções em massa na Times Square a exposições de arte. Recentemente Luciana e Paulo venceram em conjunto com sua equipe o concurso para a criação dos Mascotes dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, Vinícius e Tom.

Léo Almeida – Fui na BIRDO uma vez há alguns anos, rapidamente, acompanhando uma amiga que conhecia o Paulo Muppet. Assim que entrei, vi que era lugar de gente obstinada com arte. Gente organizada. Gente que cria, gente que gosta do que faz. Pra um pretenso videografista, entrar num estúdio desses é como uma criança entrar numa sala cheia de brinquedos: você não sabe nem pra onde olha! Dentro da saleta num bairro paulista, entre Wacons e miniaturas diversas, a Birdo atua no mercado publicitário criando peças audiovisuais com um colorido diferente, animações com movimentos de fazer inveja aos japoneses, e imprimem um ritmo incrível de produção, contando que são uma equipe pequena. Foram incontáveis projetos, desde animações para cinema, tv, web, até a criação de personagens, como no caso dos Mascotes das Olimpíadas e Paralimpíadas do Rio, em 2016.

Perguntando rapidamente como era o processo de criação, Paulo me explicou que ali cada um tem seu papel, enquanto um faz a line-art, outro colore, outro finaliza, e ainda tem toda a inserção de outras técnicas de Motion Graphics e 3D, na ideia de sempre encontrar um novo caminho, uma nova linguagem, porém, sempre com o traço “BIRDO” de ser. Mas o que mais me intrigou foi quando o Paulo me confidenciou que não era lá um grande desenhista, diferente dos arte-finalistas sócios que trabalham em conjunto com ele, tipo a Luciana Euguti, animadora de mão cheia, premiada, e sócia da Birdo.

Afinal, é necessário ser um grande desenhista para ser um excelente animador? E de que maneira aplicar as bases e conceitos do design e ilustração auxilia na carreira de um videografista?

Paulo Muppet – Léo, algumas notas sobre a introdução:

  • Quando você visitou a Birdo, tínhamos apenas 7 ou 8 pessoas. Agora já somos 56 fixos, fora todos os freelas. Naquela época rolava uma certa divisão de tarefas, mas na hora do aperto todo mundo fazia de tudo, desde escrever o roteiro até finalizar no After Effects.  Hoje os departamentos são bem mais especializados.
  • Rola uma lenda de que trabalhamos pro mercado publicitário, mas em 11 anos de Birdo dá pra contar nos dedos de uma mão as vezes que trabalhamos com agências de publicidade. Nosso negócio de verdade sempre foi fazer conteúdo, de curtas metragens e videoclipes a séries pra web ou Tv.
  • Somos apenas 2 sócios, eu e a Lu, mas nossa equipe de diretores trabalha conosco há mais de 7 anos.

Léo Almeida – Conta um pouco sobre a história da Birdo, como vocês decidiram se juntar e montar um estúdio?

Paulo Muppet – Lá atrás em 2005 havia poucas opções pra se trabalhar com animação no Brasil para além do motion graphics. Eu e a Lu curtíamos animar personagens, e resolvemos apostar num pequeno estúdio com esse perfil. Começamos com 2 computadores e uma máquina de fax. Fomos crescendo aos poucos e assumindo trabalhos maiores. Hoje somos 56 fixos, fora todos os freelas, e produzimos 3 séries de TV ao mesmo tempo, além de participar de outros projetos como longas, games, espetáculos de teatro e diversos desenvolvimentos.

LA – Quais foram os principais trabalhos da Birdo até agora, e como eles alavancaram o networking de vocês?

PM – Acho que as duas coisas são um pouco diferentes: principais trabalhos e networking. Em termos de crescimento profissional, os principais trabalhos foram aqueles que nos obrigavam a dominar partes do processo de animação nas quais ainda éramos inexperientes. Foram por exemplo o curta “Caixa”, que foi nossa primeira experiência com roteiro, o clipe “Bonequinha do Papai”, nosso primeiro trabalho de encomenda como criadores e diretores e a série Mobsquad, que nos ensinou a lidar com prazos numa escala maior.

Em termos de networking nada supera o trabalho com os mascotes Vinicius e Tom. Nele nós fomos obrigados a trabalhar lado a lado com os melhores profissionais do Brasil em diversas áreas: desenvolvimento de produto, licenciamento, canais de TV, branding, publicidade, design e muitas outras. Essas pessoas incríveis que nos ensinaram tanto são muito queridas e próximas até hoje.

LA – O foco de vocês é animação, desenho e frame a frame, mas entra alguma coisa de Motion Design em algum momento? Como vocês trabalham essa inserção de outras técnicas e linguagens que não seja animação tradicional?

PM – Com o perfil de trabalhos que temos feito é de fato raro usar aquele motion graphics clássico, baseado em design e softwares como o After Effects ou 3D. Mas muitas ferramentas do motion são utilizadas nas nossas aberturas, animações de efeitos e cenas especiais. Também costumamos usar cenas ou elementos em live action nas nossas séries e, quando conseguimos, adoramos dar aquele acabamento de cor, desfoque, multiplano e transparências que só as ferramentas de motion permitem.

LA – Um bom animador precisa ser um bom desenhista?

PM – O conjunto de habilidades – ou skillset -, de um bom desenhista e de um bom animador são bastante diferentes entre si, ainda que com alguma intersecção. É possível ser um bom animador entendendo muito de timming e mecânica do corpo, mesmo sem saber desenhar. Mas é natural usar cada vez mais o desenho à medida em que se ganha experiência, porque ele dá a chance do seu pensamento visual resolver problemas que parecem difíceis ou complicados para a lógica espacial isolada.

LA – Mercado: você faz ou ele te faz?

PM – Um pouco de cada. Quando abrimos a Birdo não havia mercado para animação de personagens pro Brasil, mas insistimos e achamos oportunidades em curtas, videoclipes e até vídeos médicos. Hoje, graças aos desenvolvimentos dos últimos 10 anos, temos um mercado de séries e longas, que ajudou a direcionar nossa produção para os formatos mais populares.

LA – Vocês têm mais de uma década de existência e passaram por toda essa revolução digital. Do acetato pro papel, do papel pro computador: novas ferramentas são bem vindas, ou o Flash ainda é a base em termos de software? Quais outros softwares vocês recomendam para animadores?

PM – O Flash ainda é nossa principal ferramenta, mas também usamos o Photoshop, Sketchbook Pro, Toonboom Storyboard Pro, After Effects, muito Google docs e em breve faremos nosso primeiro produto em Harmony.

Acho difícil para um animador hoje em dia focar em apenas um software, ele precisa ser flexível de acordo com o projeto em que quiser trabalhar.

LA – Nesse mundo corrido, e em um mercado que exige paciência e dedicação pro produto final sair incrível, como vocês lidam com a expectativa do cliente em termos de entrega? O mercado em geral ainda acha que animação é algo “rápido e fácil” de se fazer, ou já criamos uma cultura de produção de animação no Brasil?

PM – Hoje temos a sorte de estarmos inseridos num mercado – o de conteúdo -, que tem décadas de experiência com animação e que entende o processo, muitas vezes melhor do que nós mesmos. São canais, produtoras e distribuidoras que constantemente realizam horas de programação todos os meses. É claro que ainda existem os desinformados eventuais, especialmente no Brasil, mas eles são cada vez em menor número.

LA – O Brasil vive um “boom criativo”. Vocês se sentem pioneiros dessa nova geração que já nasce com uma Wacom debaixo do braço e cheios de plugins?

PM – Criativamente sim, mas na Birdo ainda somos muito tradicionais e conservadores em termos de negócios, enquanto a geração mais jovem é bastante ousada com formatos, distribuição e critérios de produção.

LA – Back to the basics: Afinal, onde um profissional pode se aperfeiçoar no Brasil para trabalhar dentro do mercado audiovisual voltado para animação? Vocês procuram cursos ao longo da carreira, ou a escola foi/é mesmo o dia-a-dia da Birdo?

PM – Nossa escola foi o dia a dia (minha e da Lu), mas a maior parte dos nossos funcionários passou por cursos online como o Animation Mentor, cursos livres como os da Quanta Academia de Artes e até faculdades de animação, como a PUC Rio ou Melies. Ainda assim, ninguém vem pronto para a função e acaba aprendendo as manhas com os mais experientes.

LA – Quais os planos da Birdo para 2017? Alguma super novidade que possam compartilhar?

PM – 2016 foi um sonho, com todo o sucesso dos mascotes durante os jogos olímpicos e paralímpicos. Ainda conquistamos o primeiro lugar de audiência no Cartoon Network com a série do Vinicius e Tom, batendo até series estrangeiras como Adventure Time. Mas temos certeza que 2017 vai ser igualmente emocionante, com a estreia na TV da nossa primeira ​série de formato mais longo, “Oswaldo”. Também temos outras 2 séries em produção no estúdio que ainda não têm data definida.

LA – Por fim, a pergunta doida: com quantos limões se faz uma animação? 

PM – Com 24 limões por segundo!

LA – Muppet, obrigado pelas palavras e boa sorte com a BIRDO!


O Layer Lemonade agradece imensamente a Paulo Muppet pela entrevista, e a Léo Almeida pela parceria!

Comentários

comments