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Papo Lemonade com Vitor Cervi

Vitor Cervi é um Artista Visual brasileiro, atualmente baseado em Paris, França. Vitor possui uma vasta experiência com foco em Motion Design, ilustração e Direção de Animação, tendo trabalhado com inúmeras grandes marcas ao longos dos anos e produzido peças incríveis como a abertura do Pixel Show de 2015 e 2016.

Layer Lemonade – Quais foram suas influências na infância/adolescência, que de certa forma te ajudaram a ser o profissional que você é hoje, e como foi seu primeiro contato com a animação?

Vitor Cervi – Eu desenho desde que consigo me lembrar. Meu primeiro contato com animação com certeza foi através da televisão. Desenhos como Thundercats, G.I.Joe e Transformers, que assistia de manhã, além de longas da Disney, claro. Acho que o primeiro desenho que realmente me chamou atenção e me fez parar pra pensar foi Akira, que assisti por volta dos 7 anos. Depois, durante a adolescência, acabei me interessando pelos quadrinhos da Marvel e alguns europeus também, especialmente Moebius, e por isso fui fazer aulas de desenho. Mais tarde, por influência de meu irmão, que também é designer, acabei ingressando em um curso de graduação em Design Gráfico. Fora isso, acho que vale dizer que meu avô e meu pai trabalharam com cinema, de diferentes modos, e hoje penso que isso me deixou algumas marcas.

“(…) sempre fui avesso à ideia de me especializar. Quanto mais puder aprender, melhor. Por isso, quando perguntam, acabo dizendo que sou um Artista Visual ou Image Maker. Tenho gosto pela coisa visual de um modo geral”. – Vitor Cervi

LL – Você tem formação em design gráfico pela UNESP, certo? Você também possui alguma formação em animação? Como desenvolveu suas habilidades técnicas e artísticas?

VC – Exato, estudei no campus da UNESP em Bauru. Meu interesse em aprender animação surgiu quando comecei a assistir ao trabalho de outros colegas mais velhos, e acabei aprendendo como autodidata mesmo. O fato de estudar longe de um grande centro foi bem bom nesse sentido. Lá, não existia essa tendência de começar a trabalhar logo no primeiro ano, como acontece em lugares como São Paulo, então tínhamos muito tempo livre para pesquisar diferentes coisas. Naquela época, muitos softwares novos apareceram e com eles, o que hoje se chama Motion Design estava nascendo. Era uma coisa diferente da animação tradicional, e não envolvia o quadro a quadro nem personagens necessariamente, então, junto com outros amigos, assistia aos filmes da MK12, da Nakd e da Lobo e bom, foi muito fácil ser seduzido por uma produção tão inovadora e bem feita.

LL – Além do design, você também é fotógrafo, tendo cursado fotojornalismo na Spéos Photographic Institute. O seu envolvimento com fotografia veio antes ou depois do contato com o design/animação? E entender sobre fotografia mudou a sua percepção na hora de criar seus projetos?

VC – Durante minha graduação em Design, eu cursei três semestres de fotografia. Era um curso bem técnico, mas foi uma boa introdução. Mais tarde, cansado de passar tanto tempo em frente ao computador, comecei a fotografar mais como hobby e como uma forma de ter mais contato com a natureza. Acho que comecei a viajar bastante, e isso também me estimulou. Estudar fotojornalismo em uma escola tão boa mudou principalmente minha maneira de pensar o conteúdo de meus projetos e a narrativa, o storytelling. Eu sei que existem divisões tanto na academia quanto no mercado, mas pessoalmente, sempre fui avesso à ideia de me especializar. Quanto mais puder aprender, melhor. Por isso, quando perguntam, acabo dizendo que sou um Artista Visual ou Image Maker. Tenho gosto pela coisa visual de um modo geral.

“O lado bom de desenvolver coisas na Europa com certeza é a organização. O mercado no Brasil não possui método nem processo, e isso é bem cansativo”. – Vitor Cervi

LL – Antes de morar em Paris, você chegou a trabalhar para o mercado nacional? Estando hoje fora do Brasil, e  de acordo com a sua experiência, você conseguiria relacionar os dois mercados e nos falar quais são os pontos positivos e negativos de ambos.

VC – Na realidade, apesar de morar fora já há cinco anos, eu ainda trabalho majoritariamente para o Brasil, online. Em São Paulo trabalhava de casa, daí acabei percebendo que não faz muita diferença aonde estou, exceto pelo fuso. Desenvolvi um estilo de vida que, se tiver internet boa, uma mesa e uma cadeira, eu consigo trabalhar. Por nosso país ser tão desigual, acontece que acabo ganhando mais com clientes daí do que com os europeus, e viver em cidades pequenas por aqui não é necessariamente mais caro do que viver nos grandes centros brasileiros. O lado bom de desenvolver coisas na Europa com certeza é a organização. O mercado no Brasil não possui método nem processo, e isso é bem cansativo.

LL – Você lembra do seu primeiro projeto que dirigiu, tendo outras pessoas na equipe? O que você leva em consideração na hora de gerenciar e dirigir uma animação?

VC – Meu primeiro projeto como diretor foi um curta experimental que desenvolvi com um amigo, Daniel Bruson, no fim de 2011. Na realidade, nem sei se dá pra dizer que dirigimos, porque fizemos praticamente tudo. Eu não gosto muito dessa ideia hierárquica de dirigir, acabo sempre colocando bastante as mãos na massa. Ainda tenho um certo prazer no executar, mas obviamente reconheço que em certos projetos não é possível fazer tudo sozinho, é preciso delegar, explicar, direcionar mesmo. Ainda assim, gosto de pensar mais em tudo isso como uma parceria, de trabalhar com gente que está interessada, aberta e que pode acrescentar na criação.

LL – Você foi responsável por criar dois opening titles para a Pixel Show. Qual você mais curtiu fazer e como é o processo de criação de uma peça desse tipo? O festival também se envolve no processo criativo?

VC – Os primeiros titles que fiz pro Pixel foram também em parceria com o Daniel Bruson. Foi bem legal, principalmente para soltar mais a mão na animação tradicional, que era algo que eu não fazia havia tempo, mas acho que no segundo eu tive mais tempo e acabei gostando mais do resultado. Trabalhar com o pessoal da Zupi, que organiza o evento, é bem bom. Eles não tem muita verba, como normalmente é o caso nesse tipo de produção, mas estão bem cientes disso, e em contrapartida sempre nos deram muito prazo e liberdade criativa, até porque também são da área. São bem parceiros mesmo. E esse tipo de filme sempre dá bastante visibilidade. É o tipo de material que curto fazer pelo esmero e porque dá um bom portfólio.

LL – Quais os profissionais e estúdios que você mais admira atualmente? E com qual/quem você tem vontade de trabalhar?

VC – Existem muitos estúdios bons hoje em dia. Sem pensar muito, posso citar a Giant Ant, a Tendril, a Moth e a Animade. Acho interessante ver como as pessoas que faziam Motion Design tradicional (se é que isso existe), aquela coisa mais gráfica, abstrata, digital, estão se voltando mais e mais para personagens. Penso que a maneira com a qual as ferramentas de trabalho se desenvolveram com o passar dos anos teve um papel importante nessa convergência. Fora isso, eu sempre busco coisas de outras áreas, como na fotografia e na pintura. Acho que ajuda a atualizar o olhar e evitar os modismos, sempre tão presentes no Design.

“Sempre sigo a máxima: cada prazo tem o resultado que merece”. – Vitor Cervi

LL – Quais são suas ferramentas (hardware/software), de trabalho? E qual você recomendaria MUITO por ter mudado/facilitado bastante seu workflow?

VC – Eu trabalho com um Macbook Pro e uma tablet simples da Wacom. Isso funciona bem com meu estilo de vida, porque estou sempre mudando de lugar. Recentemente comprei um iPad Pro, mas ainda não tive tempo de testá-lo no meu workflow. As expectativas estão altas. Me parece uma ferramenta excepcional, por causa da relação da caneta com a tela. É uma coisa bem tátil que faz diferença pra mim. Os softwares que mais uso pra animar são o After Effects e o Animate, além de um pouco de Cinema 4D. E claro, sempre passo pelo Photoshop e pelo Illustrator. O After Effects é com certeza o software mais versátil da Adobe, é ele que eu recomendo.

LL – Você já teve aquele momento de desespero ao pegar um projeto e perceber que não conseguiria executá-lo?

VC: Não. Acho que minha preocupação com um projeto sempre é igual a de meus clientes. Se eles não estão desesperados, eu não vejo porque eu deva ficar. É tudo uma questão de alocar recursos e pensar no que funciona para a verba e o tempo que se tem. Sempre sigo a máxima: “cada prazo tem o resultado que merece”.

“A carga horária da animação, em frente ao computador, é algo que questiono muito. Não quero ficar velho, olhar pra trás e perceber que passei boa parte de minha vida numa sala escura”. – Vitor Cervi

LL – Você carrega consigo alguma frase (seja de livro, música, etc), que te inspira e te dá vontade de produzir sempre mais?

VC – “A definição de loucura é fazer a mesma coisa esperando um resultado diferente”. Não sei quem é o autor, mas tento não repetir o mesmo processo quando trabalho. É importante pra conseguir fazer algo novo. E por vezes eu me repito, voluntariamente, só pela loucura mesmo.

LL – Quais os planos e metas para Vitor Cervi? E quer deixar algum último recado para as pessoas que estão começando e sentem vontade de trabalhar com animação/motion design, mas que no momento se encontram meio perdidas ainda, sem a certeza do que fazer?

VC – Dentro do meio da animação, acho que minha meta é desenvolver alguns curta-metragens, mas tenho me interessado mais e mais por fotografia. Como disse anteriormente, me dá tanta ou mais satisfação. A carga horária da animação, em frente ao computador, é algo que questiono muito. Não quero ficar velho, olhar pra trás e perceber que passei boa parte de minha vida numa sala escura. Todavia, eu gosto muito de desenhar e sei que não vou parar, então o que tento fazer é usar meu tempo de maneira esperta, ser organizado para poder produzir e curtir o mundo exterior. Outra frase que gosto vem de Annie Dillard: “Como passamos nossos dias é, obviamente, como passamos nossas vidas”. Enfim, sei que isso tudo que disse não soa muito estimulante, mas vale dizer que é o que funciona para mim. Pra quem está começando, só posso dizer pra ir fundo no que quer, obsessivamente, aprender a dizer sim para aquilo que vai te levar pelo caminho que você escolheu, e não para todas as distrações. E nunca, mas nunca mesmo, deixe de ler.

RAPIDINHAS

LL – Cel animation ou animação 2d?

VC – O que funcionar melhor para o resultado que eu quero atingir.

LL – Produzir opening titles ou vídeoclipe?

VC – Ambos!

LL – Render Queue do After Effects ou Media Encoder?

VC – After Effects.

LL – Textura ou flat?

VC – Depende dos sapatos que estou usando.

LL – Limonada ou Cerveja?

VC – Na França se toma os dois, juntos, um dedo de limonada e completa com cerveja.


O Layer Lemonade agradece imensamente a participação de Vitor Cervi. Desejamos tudo de melhor em sua carreira e você é sempre bem-vindo a participar e contribuir conosco!

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