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O poder das nossas limitações

Normalmente é raro terminar um projeto com o sentimento de que aquilo era exatamente o que gostaríamos que fosse. O mercado tende a querer sempre soluções previsíveis e não dar espaço para experimentações e para as loucuras que saem das nossas cabeças. Mesmo assim, as limitações que normalmente temos podem fazer muito bem aos nossos projetos! Elas nos forçam a olhar as coisas por outros ângulos e a buscar soluções para transpor estes limites.

Este é mais um tema inspirado pelo livro “Manage your day-to-day: build your routine, find your focus and sharpen your creative mind”. Não deixe de ler o artigo anterior que também foi baseado no que aprendi lendo-o.

As vantagens de sermos limitados

Se você não possui a habilidade de ilustrar corpos humanos realistas, proporcionais e anatômicos, você provavelmente terá que desenhar um corpo estilizado e cartunesco. Este personagem, que veio da sua incapacidade de fazer um certo estilo, provavelmente será muito mais original do que um desenho foto-realista que algum artista foda pode fazer.

Este é um exemplo bobo, mas mostra como nossas limitações podem nos ajudar a criar coisas diferentes e até a encontrar um estilo próprio. Por mais que pareça contraditório, quando temos liberdade total para fazer um projeto, é muito difícil ter boas ideias.

Existem dois tipos de limitação e ambas podem ser benéficas: as suas limitações técnicas e as limitações do briefing.

Existem várias técnicas, por exemplo, para simular um fake 3D no After Effects. Antes de dominar um software 3D, muitos de nós já usamos estas técnicas para simular objetos tridimensionais nos nossos projetos. A limitação acaba nos obrigando a criar estratégias criativas para solucionar problemas usando as ferramentas que nós dominamos.


Personagem 2D que tenta simular um rosto 3D

Muitos motion designers, por exemplo, não são ilustradores, mas eu sempre penso que qualquer um pode ser um bom ilustrador se aprender a trabalhar com as suas limitações. Sempre que assisto South Park penso nisso. Não posso dizer que os criadores são péssimos ilustradores e por isso criaram um estilo tão simplório para o desenho. O que quero dizer é que mesmo se você não tiver habilidades de ilustrador, você ainda pode unir algumas formas geométricas simples e criar um personagem. Ou um carro, ou uma cidade, ou o que você quiser. Trabalhar com as nossas limitações faz com que encontremos soluções criativas para o que precisamos fazer, e isso pode expandir nossa mente.

O mesmo acontece quando temos muito o que dizer em um vídeo de poucos segundos. Isso nos força a resumir e captar a essência do conteúdo. Quando temos pouco tempo para produzir um projeto, temos que resolver como fazer animações simples sem tornar o vídeo monótono, ou criar um estilo fácil e rápido de replicar (isso quando temos um pensamento estratégico no planejamento do projeto, claro). Tudo isso vai nos gerar resultados bem diferentes dos que teríamos tendo todos os recursos e tempo suficiente para executar. Estes resultados não são necessariamente piores. É sempre melhor tentar criar algo único dentro das limitações do que ficar reclamando delas.

A cada dia nós temos suado mais a camisa para aprender novas ferramentas. 2D, 3D, frame-a-frame e até programação. Parece que, principalmente no mercado brasileiro, nós precisamos aprender cada vez mais coisas para atender as expectativas do mercado. Sentimos que precisamos disso para sermos profissionais “completos”. Talvez, fazer mais com o que nós já sabemos seja uma forma mais eficiente de evoluir e nos superar.

É contraditório que continuemos incrementando cada vez mais o nosso canivete suíço enquanto a maioria dos projetos que temos têm baixo orçamento e uma série de limitações que nos impedem de usar todas as ferramentas e skills que gastamos muito tempo (e até dinheiro) desenvolvendo.

Precisamos começar a enxergar nossas limitações como oportunidades para fazer novos usos das ferramentas que dominamos. Limites fazem a imaginação florescer e forçam nossa mente a fazer conexões.

Ilustração da capa deste artigo por Nahuel Bardi.

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