Uma senha sera enviada para seu e-mail

Papo Lemonade com Bruna Imai

Conversamos com a super talentosa Bruna Imai, designer gráfica com experiência de trabalho com estúdios como Lobo/Vetor Zero e State Design. Atualmente ela mora em Los Angeles, e cada vez mais acrescenta projetos interessantes ao seu portfólio!

A Bruna também participou conosco nesse episódio do Anchor Point, num papo super interessante sobre a Vida de Freelancer. Vale a pena também ouvir!

1- Vamos começar conhecendo um pouco do seu background! Como você entrou no mercado? Sempre se imaginou trabalhando com design e ilustração?

Sempre me imaginei trabalhando em alguma área artística, e ilustração sempre foi a minha paixão. Eu era dessas que passava a tarde desenhando, sempre com desenhos nos cantos dos cadernos. Tive muito incentivo artístico durante parte da minha infância no Japão e na adolescência consumia muitas animações, mangás e animes.

Na faculdade, no curso de design da Unesp Bauru, participei em variadas atividades extra curriculares desde projetos de branding a projeto de produto. Comecei a me interessar pela área de animação depois que tive uma matéria na faculdade na qual produzi minha primeira animação, o Lúmen. Logo depois tive a oportunidade de produzir mais uma outra animação, o “Água neles!”, com um time mega talentoso para o Festival do Minuto. A experiência de ver meus primeiros projetos prontos, animados e  dizer: “está vivo, muahaha” foi algo que me tocou muito. A essa altura já estava quase certa que queria trabalhar nesse ramo, pois era uma área que eu poderia misturar design, ilustração, personagens, handcraft e storytelling… tudo isso animado!

Depois de acabar as matérias da faculdade montei o portfolio em pdf e enviei para uns estúdios em São Paulo, entre eles o Animatório. Não havia enviado para a Vetor-Lobo pois achava que era areia demais para o meu caminhãozinho, mas a grande surpresa foi a Vetor-Lobo me chamando para trabalhar, pois o Animatório havia se juntado a eles. Na época eu não podia acreditar que era verdade haha. E lá foi a minha grande escola de produção de vídeo. Eu sinceramente devo muito a eles, pois me sentia sempre inspirada ao lado de tanta gente talentosa e foi onde meu trabalhou desenvolveu muito.

2- Entre os seus primeiros projetos profissionais, algum deles você considera ter sido mais importante pra te ajudar a avançar na carreira? Quais foram seus projetos preferidos até hoje?

Eu tenho um ditado, que projeto é como barriga de aluguel. Cuidamos com carinho para nascer saudável, forte e com grande potencial, mas depois que entregamos para o mundo já não cabe mais a nós. Esperamos o melhor para ele, mas já vi vários deles se tornarem delinquentes do varejo.

Eu não tenho projetos específicos que me ajudaram a “avançar” na carreira, pois em cada um dos projetos tive a oportunidade de ter diferentes tipos de aprendizagem: de técnica, de dinâmica de equipe, de workflow, de pipeline, de comunicação com a equipe/diretor/cliente, de direção, de limites do meu corpo, de cálculo do prazos, de imprevistos… Muitos tipos de aprendizagem. Acredito que ter feito de tudo, dos varejos de um dia só até peças artísticas, é o que me fez desenvolver uma melhor compreensão da necessidade de cada tipo de projeto, sobre as diversas linguagens e, sobretudo, conhecer melhor minhas habilidades e limites técnicos, físicos e mentais.  Acredito que conhecer-se bem e saber seus limites é conseguir trabalhar melhor em equipe e saber o que consegue entregar ou não, e acredito que isso é profissionalismo. Ainda tenho muito, mas muito a aprender, mas se consegui avançar na carreira foi através desse processo de autoconhecimento, e não teria chegado até aqui se não tivesse participado de tudo, desde o projeto em que chorei ou fiquei doente (ai que drama!) – e reavaliei meus valores e prioridades – até os projetos que foram incríveis e inesquecíveis.

Sobre os projetos que foram mais importantes na minha carreira não foram os profissionais, mas os primeiros que fiz quando eu ainda era estudante. Tinha uma imagem de que fazer um projeto de animação era algo muito difícil. Mas tive muita sorte de fazer as animações em grupos de pessoas muito talentosas e inspiradoras, porque todo o processo de criação e de produção foi, apesar de cansativo, tão incrível que eu me apaixonei pela produção de animações. Um sentimento empoderador de que poderia criar qualquer coisa. Os meus dois projetos de animação da faculdade sem dúvidas foram divisores de água na minha vida.

3- Como é trabalhar ilustrando concepts, style frames e personagens que serão animados? Quais as etapas? Além de criar as imagens que traduzam o conceito do projeto, você também cria as peças finais que serão animadas?  Que preocupações é preciso se ter nessa fase de pré-produção para facilitar o trabalho dos animadores?


Eu amo trabalhar com concept e styleframes, de transformar o script escrito em algo visual. Mas não tem como negar que tem uma fase sofrida na criação pois você precisa entender o que o projeto está pedindo, ou seja, ter o olhar do cliente e consumidor, agregar a visão do diretor e às vezes englobar as possibilidades e limitações da técnica na qual o projeto será executado. É um puzzle, e sua tarefa é puxar o projeto no seu máximo potencial dentro das condições pedidas.

A primeira etapa é a montagem de diversos mood boards – referência visual, de acabamento, de enquadramento, cor, tipografia, estilo de transição… varia de acordo com o projeto. Caso você esteja se perguntando, sim eu sou uma Pinterest lover.

Pesquiso referências e vejo as soluções e possibilidades do que posso fazer. Muitas vezes vejo não somente referências da área de motion, mas referências de outras áreas (fotografia, esculturas, arquitetura, design gráfico, instalações e outras artes) para ter idéias de dinâmicas e soluções originais que possam ser exploradas. Já teve vez que o contorno de uma escultura me inspirou em um tipo de transição de cena. Ou fotos de arquiteturas que inspiram gráficos.

Normalmente faço um esboço mental do projeto, e essa etapa me ajuda a lapidar o que pode funcionar para o projeto e as soluções que vou testar.

Definido o mood, começo a esboçar. Faço vários sketches de testes, em quantidade, sem prezar pela qualidade para experimentar bastante e criar possibilidades. Escolho os que eu acho q funcionam bem e mostro para o diretor ou a equipe (depende da dinâmica do projeto). Troco uma idéia e trabalho em cima dos feedbacks. Faço esse processo de mostrar opções e ir coletando feedbacks para compreender o que a outra ponta pensa sobre o projeto. As vezes tento ousar um pouco mais no design do que eu sei que estão esperando, mas é melhor tentar e levar um “volta um pouco atrás” do que não tentar, pois as vezes temos sorte de um design mais ousado passar pela aprovação haha. Claro que isso depende do prazo e sua relação com o cliente.

Não é todo o projeto que é possível, mas eu gosto de criar um overview do filme todo já nessa etapa de thumbnails, antes mesmo de finalizar uns styleframes. Por overview do filme quero dizer ter uma direção, ter a linguagem das transições definidas para poder marcar os momentos do filme para criar o storytelling, pois isso irá influenciar diretamente no design. E essa etapa de confecção de moodboards e de thumbs com esboço das transições e frames é uma fase crucial, pois com esse material você consegue conversar com a equipe sobre questões técnicas de execução, quais as possibilidades e limitações técnicas dentro do budget, prazo e possíveis pedidos de alteração. Para mim, o projeto ideal é o projeto que permite ter esse ping-pong de feedback entre o designer e produção para poder moldar o filme extraindo o máximo de cada um.

Na hora de finalizar os designs, primeiro tento trabalhar com pesos e espaços vazios blocados para definir um direcionamento do olhar. Depois vou detalhando mais, compartilhando sempre que possível o work in progress ao longo do processo para saber se estamos alinhados nas idéias e eu não perder muito trabalho com alterações.

4- Como diretora de arte quais as maiores dificuldades que você costuma encontrar num projeto?
Tem algumas situações que são difíceis: quando o roteiro e conceito é ruim; quando o cliente/diretor não tem claro o que quer; quando a comunicação é ruim; ou quando continuam mudando o script ao longo do projeto.

Quando o roteiro e/ou conceito é ruim, por mais que o visual esteja maravilhoso e coeso, o filme não vai chegar longe, e o cliente e agência vai ficar pedindo e propondo milagres achando que o visual vai salvar o filme. É muito fácil cair em um frankenstein de linguagens e recursos sem coesão se o diretor e o atendimento não segurar a onda da agência e do cliente.

É difícil também quando o cliente e/ou diretor não tem claro o que quer, mas também não te permite ter liberdade para organizar e propor algo. Entramos num loop de experimentações para fazer o cliente/diretor entender o que ele está querendo no projeto . Gastamos muita energia “vendendo” idéias, adivinhando ou formando uma idéia do diretor/cliente. Não é incomum em casos assim acabar tendo pedidos para misturar soluções gráficas incoerentes de propostas diferentes no mesmo filme.

Quando a comunicação é ruim – briefing vago, feedbacks demorados e vagos – tem grande chance de chegar numa fase avançada da produção e ter de mudar coisas essenciais, pois a outra parte não prestou muita atenção nos work in progress enviados.

E quando o script continua mudando ao longo do projeto… acho q nem preciso explicar a dificuldade haha. É torcer para o projeto acabar logo.

5- No seu portfólio vemos vários projetos de pitching. Na sua experiência nesse tipo de projeto, o cliente costuma pagar os profissionais que trabalham na proposta, mesmo se ela não for aceita? Ou é comum que clientes/agências peçam para que as propostas sejam feitas “no amor”, pela chance de se conseguir o projeto no final?

Eu sempre recebi meus pagamentos pelos estúdios para fazer os pitches, ganhando ou perdendo a concorrência, mas não tenho informações precisas sobre a questão do pagamento entre as agências e estúdios. Ouvi que há pitches que pagam sem dar muito lucro e outras que fazem uma remuneração quase simbólica, pois não chega nem a cobrir os custos. O que sinto é que os grandes estúdios estão entregando materiais cada vez mais bem acabados, fazendo com que o pitches sejam bancados cada vez mais pelo próprio estúdio do que o pagamento das agências.

6- Ser freelancer requer que você faça tanto o papel de atendimento ao cliente quando o de criação. Como você gerencia seu tempo para produzir, atender clientes e viver a vida?

O equilíbrio entre o trabalho e viver a vida é algo muito individual na minha opinião. Tem gente que necessita de uma rotina, tem gente que se adapta mais fácil a agendas irregulares… acredito que é uma questão de auto-conhecimento do que funciona para cada um.

Eu aceitei o tempo das coisas e o meu ritmo e aprendi a “viver a vida” todo dia um pouco. Aceitei que tem coisas que demoram mesmo, como a parte de contabilidade e administração, e hoje até tiro dias inteiros só para resolver esse tipo de assunto. Hoje eu me conheço e sei que minha inércia é meio forte: demoro para entrar no tranco e demoro para desacelerar, e tenho respeitado isso no dia-a-dia. Me permito ter o “me time” de manhã: tomo um bom café da manhã, tomo meu chá, cuido das minhas plantas, as vezes já faço o almoço antes do horário de expediente e quando dá faço exercícios.. só começo a trabalhar junto com o horário do estúdio, e acelerando aos poucos.

Eu acredito que esses momentos que eu me permito fazer coisas que me sinto bem sem pensar no trabalho é parte de “viver a vida”, um tempo meu, que me relaxa. Depois que sento na mesa e começo a trabalhar entro “no tranco”, e não é incomum eu estender o expediente – minha inércia é forte rs. Não sou muito uma pessoa que consegue levar um projeto de maneira light, sou mais para uma pessoa intensa, quase insalubre na visão de alguns. Mas sou uma pessoa que também se permite uns bons breaks depois de uma época intensa de projeto, e acredito que com isso eu acabo equilibrando a minha vida, sem ter muitos stress.

O equilíbrio entre o trabalho e viver a vida é algo muito individual e uma questão de auto-conhecimento. Cada pessoa tem baterias de tamanhos e cargas diferentes, e também o tempo de recarga diferente também. Tem gente que necessita de uma rotina, tem gente que se adapta mais fácil a agendas irregulares… O meu é uma bateria que dura um período longo mas que precisa de um um bom tempo para recarga para continuar funcionando bem 🙂


7- Que diferenças você mais sente entre trabalhar no mercado nacional e no internacional?

Sem sombra de dúvidas a organização dos estúdios em diversos aspectos. No mercado internacional os estúdios conseguem cumprir o calendário na maior parte das vezes e é muito raro ter de trabalhar no final de semana ou estender muito tarde da noite. Muitas vezes o booking já é feito sabendo exatamente o dia que vai começar e terminar e se há possibilidade de estender o booking, o estúdio te consulta com uma certa antecedência. O compromisso com o booking também é um pouco diferente. Se te bookaram para um certo período, independente do projeto acabar mais cedo ou mesmo ser cancelado, eles pagam as diárias.

O ambiente é um pouco menos descontraído que no Brasil, mas há um respeito maior em relação ao horário de trabalho e seu tempo pessoal –  e todos tentam fazer dentro do horário do estúdio para que todos possam sair do estúdio no horário. O mercado internacional é maior, logo há mais concorrência entre estúdios, e cada detalhe conta para ficar na frente da competição. Possibilitar um maior desempenho dos artistas seja pela organização ou outros meios, cada detalhe faz a diferença.  

 

8- Que aspecto da sua profissão você mais gosta? Existe algum tipo de projeto que você ainda não teve oportunidade de trabalhar mas tem muita vontade de fazer parte?


Apesar de ser um mercado muito ligado a publicidade, o fato de não serem projetos extensos como um longa me permite explorar diversas linguagens e experimentações. Amo o fato de ser uma área peculiar que está na zona de intersecção entre linguagens de animação, design gráfico, cinema, ilustração, stop-motion, teatro, fotografia… tudo é possível em motion graphics. Gosto do fato de lidarmos com projetos criativos em equipe – aprendemos muito com isso e amo o fato de ser uma profissão que me permite ser nômade, que me permite mudar constantemente de lugar.

Tem muitos tipos de projetos que gostaria de participar, mas se for citar somente uma, tenho vontade de fazer um projeto de construção de personagens gráficos através de fantasias, ao estilo do livro Not a Toy, da editora Pictoplasma – quase carnavalesco, mas gráfico. Gosto muito de projetos que parte são feitas fora do computador, e fantasias e máscaras são assuntos que me encantam muito.   

9- Na sua experiência você sente que existe um número consideravelmente menor de mulheres trabalhando com direção de arte? Que tipo de dificuldades extras você acha que as mulheres costumam encontrar para seguir carreira na nossa área?

Primeiro queria colocar que há um número consideravelmente menor de mulheres em quase todas as áreas, não somente na área de motion ou em direção de arte. Aos poucos a sociedade está mudando, mas cuidar da família, da casa, passar tempo com os filhos ainda é muito cobrado da mulher pela sociedade e não há muitos incentivos nem suporte para a mulher continuar com a carreira depois da maternidade. Perguntas em entrevistas de emprego sobre gravidez ou intenção de ter filhos é um reflexo desse contexto. Tampouco há suporte para o homem fazer sua parte na criação e ajudar a mulher a voltar para o mercado.   

As dificuldades que temos na nossa área não mudam muito de outras áreas e carreiras.
Como exemplo posso citar a dificuldade de sermos ouvidas. Já tiveram vezes que para ser ouvida tive de ser grossa, algo que não gosto, mas na época eu não via outra saída a não ser incorporar esse comportamento em meio a uma reunião na qual eu era a única mulher e os homens se comportavam desse modo. Existem questões de comportamentos que são esperados das mulheres, pessoas que não sabem lidar com superiores femininas, assédio… a lista é grande e daria para fazer vários artigos só com esses temas.

Como tantas outras, ainda hoje a área de motion é um mercado predominantemente masculino e temos de lidar com todas as questões citadas acima.

Caso você queira saber mais sobre inserção das mulheres no mercado de Motion Design, escute nosso podcast com o grupo Garotas do Motion

Na nossa área temos também a questão do horário do estúdio que dificulta um pouco a vida das (dos) profissionais depois que se tem filhos. Os horários dos estúdios são diferentes do horário comercial comum, o que dificulta achar serviços como creches e escolas com horários que funcione bem para as(os) profissionais com filhos. No mercado nacional é um pouco pior devido ao  desrespeito pelos prazos e horários comerciais – é comum termos de fazer alterações de última hora com prazos insanos que nos obrigam a estender nossas horas de trabalho – algo que torna muito difícil a conciliação maternidade-trabalho.

Apesar de tudo isso sou bastante otimista. Acredito que estamos numa geração de transição. Não vou viver uma sociedade totalmente feminista, mas definitivamente estamos tendo muito mais espaço para conversar sobre o assunto e caminhando para melhor.

10- Finalmente, que dicas você daria pra quem tem interesse em ser diretor de arte para projetos de motion design? Que habilidades a pessoa deve buscar desenvolver?

Diria para se alimentar de diversos tipos de referências, não somente de motion. Há diversas linguagens de diversas artes de diversos sentidos. Assim como línguas são traduzíveis de uma para outra, todos os tipos de expressão artística e experiências são traduzíveis entre elas. Podemos ver um ótimo exemplo ilustrando isso no filme  Ratatouille, na parte em que os personagens descrevem os sabores do morango e queijo de formas gráficas. Ou o clássico música em gráficos.

 

Seja o profissional que consegue enxergar e navegar entre diversas linguagens, ter uma mente fresh que continua a brincar e a experimentar.

 

As famosas rapidinhas:

0. Software preferido? (papel e lápis tbm conta!)

Giz (de criança mesmo) ou pincel grosso e Photoshop

1 – Melhor trilha sonora pra trabalhar?
Ouço de tudo, variando de acordo com o momento do projeto e época – bossa, jazz, samba, rock, hip-hop, pop, clássico, eletrônica… Para entregas, já tive época que ouvia muito eletrônica, alternative hip hop… mas ultimamente tenho me concentrado melhor com música clássica. Sempre muda.

2 – Que ídolo, (ainda vivo ou não) você gostaria de conhecer pessoalmente?
Queria ter conhecido meus dois avôs, pessoas cujas histórias cresci ouvindo

3 – O que você ainda não sabe mas gostaria de aprender?
Fazer pão haha. Ser disciplinada haha. Entender de impostos.. Escultura, cerâmica e animação quadro a quadro (nessa ordem de importância, afinal já pensou poder comer um pão italiano feito em casa? Quem não gosta de um pãozinho quentinho??

4 – Café ou limonada?
Chás rs

 

Muito obrigada por mais essa participação, Bruna! Continue o seu ótimo trabalho!

 

Comentários

comments